Comprei este livro na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2019, e finalmente resolvi lê-lo. “Vidas Trans”, escrito por Amara Moira, Márcia Rocha, João W. Nery e T. Brant, é a definição de força. Como diz o subtítulo do livro: é a “Coragem de Existir”.
A obra reúne o relato destas quatro pessoas transexuais. Algo que achei bem importante, e inclusive marquei a página, foi o livro ter feito uma apresentação se dirigindo a todas as pessoas, seja transexuais ou cis, explicando, já de início, as diferenças entre identidade de gênero e orientação sexual. Ademais, também destacou algo que eu tinha dúvidas até pouco tempo atrás: transexualidade não tem relação com o órgão sexual.
Por que eu digo “força”? Todos os relatos são de pessoas nascidas no Século XX. Muitas delas começaram a “se descobrir” ainda no período da ditadura militar. Ou seja, imagine a força e a coragem necessária para seguir em frente em meio ao momento de maior repressão na história do Brasil.
Porém, é injusto só destacar a “força” ou a “coragem” destas quatro pessoas, e de tantas outras. Também é necessário destacar o protagonismo e a importância que elas tiveram na luta – que ainda continua – para que sejam reconhecidas como as pessoas dignas que são, batalhando contra o estereótipo negativo de “pessoas trans/travestis são prostitutas”.
Eu, particularmente, gostei muito do capítulo relatado por João W. Nery – o que, de forma alguma, tira o mérito dos outros relatos. Talvez por ser, digamos, mais conhecido, João pôde dedicar maior tempo da sua escrita neste livro à experiência com outras pessoas – apesar de também ter falado dos seus momentos também. E eu achei isso extremamente importante por ter dado ainda mais voz aqueles que ainda não têm tanto espaço. Em determinado momento, no qual eu vou destacar para apenas demonstrar um pouco a força necessária, João contou a conversa com um homem trans negro, que disse:
“Meu maior problema foi ter deixado de ser visto como uma mulher oprimida negra boazuda, um fetiche sexual, para ser encarado agora como um homem opressor, negro, ameaçador e bandido. Um potencial estuprador com um pau enorme! É foda!”, contou o homem trans, de 24 anos, conhecido como Bro.
Ou seja, além de lidar com o preconceito de familiares e da sociedade pela identidade de gênero, alguns ainda enfrentam outros tipos de problemas, como o racismo. Ademais, a dificuldade de adquirir emprego, que ainda existe mas era ainda pior anos atrás, também faz parte da rotina das pessoas trans. Também no capítulo do João é relatado um professor que precisou deixar de dar aulas devido ao bullying sofrido, aplicado pelos seus próprios alunos.
“Vidas Trans” merece e precisa ser lido. É um livro curto, com menos de 200 páginas, e apenas quatro depoimentos. Não vai nos dar um panorama completo da vida das pessoas trans, mas nos dá uma ideia e ajuda que pensemos melhor em nossas atitudes. Ademais, como eu já destaquei acima, o capítulo de apresentação da obra esclarece algumas dúvidas básicas sobre a terminologia correta.