Com Bruno Gagliasso e Marcélia Cartaxo no elenco, thriller psicológico mistura suspense, diferenças sociais e uma homenagem a Nelson Rodrigues por meio de uma narrativa dentro do próprio filme.
O cinema também é feito de histórias que acontecem por trás das câmeras. E foi justamente nesse universo que a Tribernna teve a oportunidade de mergulhar durante uma visita ao set de Eternamente Sua, novo longa-metragem escrito e dirigido por Sérgio Machado (Cidade Baixa). Na ocasião, a equipe estava filmando uma sequência bastante particular: uma adaptação cinematográfica de O Beijo no Asfalto, obra de Nelson Rodrigues.
A cena, gravada na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Rio de Janeiro, faz parte de uma das propostas mais interessantes da produção: a metalinguagem. Isso porque o filme de Nelson Rodrigues não é a história principal de Eternamente Sua, mas uma produção dentro da própria narrativa. Nela, o personagem interpretado por Bruno Gagliasso e pelo Romulo Estrela participam das filmagens, criando um diálogo entre as duas histórias.
Durante nossa passagem pelo set, pudemos conhecer um pouco dos figurinos, observar a movimentação do elenco e acompanhar de perto a construção desse universo cinematográfico. Também conversamos com a produtora Joana Henning, o diretor Sérgio Machado e o protagonista Bruno Gagliasso sobre as inspirações, os desafios e as expectativas em torno do projeto.

Nelson Rodrigues dentro de Eternamente Sua
A presença de O Beijo no Asfalto não é apenas uma referência cinematográfica. A escolha da obra de Nelson Rodrigues estabelece uma conexão temática com a história central do longa, especialmente quando o assunto são as relações humanas, o preconceito e a maneira como a sociedade interfere na vida das pessoas.
Na trama, Marcélia Cartaxo interpreta Luísa, uma mulher nordestina e socialmente invisibilizada, enquanto Bruno Gagliasso vive um homem rico, famoso e pertencente a uma realidade completamente diferente da sua. O encontro entre esses dois universos movimenta um thriller psicológico que aborda poder, desejo, fama e desigualdade social.
Sérgio Machado explica que a identificação com a obra de Nelson Rodrigues foi determinante para trazer a peça para dentro do filme. O cineasta também destaca as semelhanças entre os personagens das duas histórias.
“A personagem da Marcélia, a Luísa, é uma mistura de Arandir com Aprígio. É um personagem inocente que é catapultado e pego pelas engrenagens do mundo, que é perverso, um mundo doente, jogado nessa engrenagem dessas diferenças sociais absurdas do Brasil.”
O diretor conta que sempre teve vontade de trabalhar com a obra de Nelson Rodrigues e que conseguir os direitos para utilizar O Beijo no Asfalto foi uma conquista especialmente importante para a realização do projeto.
A produtora Joana Henning também enxerga uma conexão direta entre as duas narrativas. Para ela, a metalinguagem ajuda a aprofundar a discussão sobre o amor e as barreiras impostas pelas diferenças sociais.
“Eu acredito muito que o amor de Luísa e Lipe é um amor que tem um vilão, que é o olhar social sobre eles. São camadas sociais tão distintas, um no topo da cadeia alimentar e outro na base da pirâmide, que a sociedade jamais permitiria que esse amor se consolidasse.”
Joana também revela que a escolha de Nelson Rodrigues tem um significado pessoal. No início de sua carreira no Rio de Janeiro, a produtora trabalhou na organização do acervo histórico de Jece Valadão, experiência que a aproximou do universo rodrigueano.
“Quando o Sérgio me falou de trazer Nelson para dentro do filme, eu falei: ‘Poxa, vai ser para mim uma coisa muito emocional, muito pessoal, porque eu comecei, de certa forma, a minha carreira falando de Nelson, vivendo o Nelson’.”

Um thriller psicológico sobre desigualdade e relações humanas
Apesar da homenagem ao dramaturgo brasileiro, Eternamente Sua tem uma história própria, livremente inspirada no conto Leporella, de Stefan Zweig. A narrativa acompanha o encontro entre personagens de realidades completamente distintas, colocando em evidência as relações de poder e as tensões provocadas por uma sociedade marcada pela desigualdade.
Para Sérgio Machado, a ideia de desenvolver essa história surgiu há mais de duas décadas. O cineasta conta que leu o conto de Zweig depois de filmar Cidade Baixa e, desde então, alimentava o desejo de transformar aquela narrativa em um longa-metragem.
O interesse pelo suspense também foi fundamental para a construção do projeto. Admirador de Alfred Hitchcock, Machado explica que sempre teve vontade de explorar o gênero e suas possibilidades cinematográficas.
“O suspense é um gênero feito sob medida para quem é apaixonado por linguagem cinematográfica. Você pode manipular, de alguma maneira, as emoções dos espectadores.”
O diretor também destaca o contraste entre os protagonistas como um dos elementos centrais da narrativa: de um lado, uma mulher pobre, nordestina e invisibilizada; do outro, um homem rico, famoso e acostumado a ocupar os holofotes.
“Ele é super visível, ela é invisível. E esses dois personagens… O filme é sobre o choque desses dois personagens. Tem esse assunto que me interessa, esse choque de classes sociais, e tem outra coisa que me interessa muito, que é o suspense.”
Bruno Gagliasso, que além de protagonizar o longa também participa como produtor associado, reforça que a desigualdade é um dos pontos mais fortes da história. Para o ator, os personagens compartilham o desejo de serem vistos, mas partem de perspectivas completamente diferentes.
“É essa diferença de classes, essa distância de uma classe para outra. Ambos querem ser olhados, só que por perspectivas completamente diferentes. Ambos querem a atenção. É um filme muito forte.”
O ator também adianta que o público pode esperar uma narrativa surpreendente, com momentos de tensão e sustos. Sem entregar detalhes importantes da trama, Bruno demonstra entusiasmo com o roteiro e com a parceria estabelecida entre os realizadores.
“É um filme muito surpreendente. Todo mundo vai tomar alguns sustos, vai ficar surpreso. É um roteiro muito bem feito.”

Uma parceria que pretende ir além de um filme
Além de marcar uma nova fase para o Estúdio Escarlate, Eternamente Sua representa o início de uma parceria criativa que pretende render outras produções. Durante a entrevista, Bruno Gagliasso adiantou que o trio já trabalha no desenvolvimento de novas histórias, incluindo um projeto sobre Chico Mendes.
“Esse é o primeiro de uma série de filmes que a gente está pensando, botando no papel, roteirizando. E esse é o primeiro filme concreto saindo do papel.”
Assim, Eternamente Sua não representa apenas a realização de um projeto aguardado há anos por Sérgio Machado, mas também o primeiro passo de uma parceria que ainda pretende levar muitas outras histórias ao cinema.

Filmagens encerradas e expectativa para a estreia
Além de Bruno Gagliasso e Marcélia Cartaxo, Eternamente Sua conta com Rômulo Estrela, Débora Nascimento, Lara Tremouroux, Shirley Cruz, Karina Telles, Suzy Lopes, Bruno Goya, Luiz Bertazzo e Fernando Eiras. O elenco também recebe Joálisson Cunha e Rubens Santos em participações especiais.
Depois das gravações realizadas em diferentes bairros do Rio de Janeiro, a produção seguiu para Cabaceiras, na Paraíba, onde encerrou as filmagens. Conhecida como a Roliúde Nordestina, a cidade também integra o universo visual da narrativa e, segundo Sérgio Machado, funciona quase como uma personagem da história.
A visita ao set nos permitiu conhecer um pouco da construção de um filme que utiliza o próprio cinema como parte de sua narrativa, ao mesmo tempo em que aproxima referências clássicas da dramaturgia brasileira de questões sociais e humanas contemporâneas.
Com a conclusão das filmagens, Eternamente Sua segue agora para as próximas etapas de produção. A expectativa fica para conhecer o resultado dessa mistura de suspense psicológico, metalinguagem e tragédia, conduzida por um elenco que reúne nomes importantes do cinema brasileiro.









