CRÍTICA | Cara-de-Barro acerta no terror, mas erra no ritmo

Uma coisa que vem chamando a atenção na construção do DCU de James Gunn é sua aposta em personagens menos populares. Cara-de-Barro é um vilão B do Batman, e a maioria de suas adaptações (todas para animações) tinha um quê de comédia, principalmente em sua participação na série Harley Quinn. Agora, porém, o personagem ganhou um filme solo com uma abordagem voltada para o terror, seguindo um caminho pouco explorado nas produções de super-heróis.

A produção conta com roteiro de Mike Flanagan (Doutor Sono) e direção de James Watkins (Não Fale o Mal). No filme, Matt Hagen (interpretado por Tom Rhys Harries) é um jovem de Gotham cuja rápida ascensão como astro de Hollywood é interrompida quando um criminoso o deixa gravemente desfigurado. Abandonado e desesperado, ele procura um tratamento experimental capaz de restaurar sua aparência.

Cara-de-Barro acerta e erra na mesma medida. O filme consegue construir a trajetória interna de um personagem, envolver o espectador com seus sentimentos e mostrar o nascimento de um vilão. Ao mesmo tempo, porém, acaba caindo em alguns vícios comuns do cinema blockbuster.

Cara-de-Barro acerta no horror corporal

Pela proposta do filme e do personagem, já era esperado que Cara-de-Barro explorasse o horror corporal. Ainda assim, a produção consegue elevar esse aspecto a uma grande potência. Na sala de cinema, era possível ver as pessoas se contorcendo de agonia diante de algumas cenas gráficas. Não à toa, o filme recebeu classificação indicativa para maiores de 18 anos no Brasil.

Os efeitos visuais e a maquiagem contribuem muito para o resultado e talvez sejam os maiores destaques da obra, ao lado de seu protagonista.

Assim como foi arriscado apostar em um personagem pouco popular, escalar Tom Rhys Harries também foi uma aposta alta. O ator, ainda pouco conhecido e com poucos trabalhos de grande destaque, tinha a missão de carregar um filme de terror baseado em um personagem dos quadrinhos. E, dentro dessa proposta, ele consegue cumprir seu papel.

Tom tem o carisma necessário para conquistar o espectador e, ao mesmo tempo, demonstra versatilidade ao transitar entre um astro em ascensão, uma vítima e um supervilão ao longo de 1h48 de filme. Sua química com Naomi Ackie também ajuda a intensificar a imersão do público na trama.

Ritmo e tom prejudicam a narrativa

Como mencionei, Cara-de-Barro acerta e erra na mesma medida. Um dos grandes problemas do filme está no ritmo e no tom, que transitam entre diferentes abordagens sem sempre contribuir para o desenvolvimento da trama.

A apresentação acelerada e a sequência de imagens rápidas ainda no primeiro ato dão a impressão de que algumas partes precisaram ser cortadas para que o filme coubesse em sua duração final. E o problema não se limita ao início: ao longo da obra, diversos momentos recorrem a cortes rápidos como atalhos narrativos, em vez de mostrar ao espectador a evolução do personagem.

Se o filme acerta em cheio no horror corporal, o suspense e o mistério não funcionam tão bem. O caminho parece óbvio para quem assiste, o que reduz o impacto das possíveis surpresas que a direção parece buscar.

Apesar da química entre Tom Rhys Harries e Naomi Ackie, poucas cenas de flerte funcionam. Elas parecem deslocadas dentro da obra: cumprem uma função narrativa, mas nem sempre encontram coerência com o tom do filme.

Uma abordagem que poderia explorar melhor o terror

Uma cena em particular me decepcionou pela diferença entre a proposta e a execução: a sequência da boate. Sem entrar em spoilers, o filme se apresenta como uma produção de terror, e a cena poderia explorar muito mais os elementos característicos do gênero. No entanto, a escolha dos planos e dos cortes aproxima a sequência de um filme de ação no estilo John Wick.

Cara-de-Barro é um respiro entre os filmes de super-heróis

Cara-de-Barro se arrisca. Acerta e erra. Ainda assim, mostra que os filmes de super-heróis podem sair do óbvio e apresentar narrativas diferentes. Em alguns momentos, a direção parece assumir um papel mais determinante do que o próprio uso dos elementos do gênero na construção dessa história baseada em quadrinhos.

Longe de ser um filme perfeito ou revolucionário, Cara-de-Barro representa um respiro em meio às aventuras épicas à la Superman ou Vingadores, às quais já estamos excessivamente acostumados nas telonas.

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