CRÍTICA | Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira transforma os traumas da ditadura em um pesadelo familiar

O que acontece quando mensagens aparentemente enviadas por engano começam a revelar segredos sobre a própria família? Essa é uma das questões que movem Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira, filme dirigido por Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão.

Ambientada em Porto Alegre, em 2019, a trama acompanha Luiza (Maria Galant), uma jovem de 27 anos que começa a receber vídeos misteriosos pela internet. As imagens vêm do Uruguai e trazem a voz de Verónica (Verónica Perrotta), uma mulher que compartilha lembranças de sua juventude. Aos poucos, as mensagens revelam conexões inesperadas com a história familiar de Luiza e dão início a uma investigação que ultrapassa os limites de sua própria existência.

Em apenas 1h28, Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão constroem uma história capaz de comover, impactar e provocar um doloroso choque de realidade. Ao trazer à tona crimes e violações relacionados à ditadura cívico-militar brasileira, Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira aposta em uma linguagem experimental, que flerta com o documentário e utiliza imagens que remetem a filmagens caseiras. A atenção aos detalhes e aos objetos reforça a sensação de nostalgia, como se cada registro tentasse recuperar uma história arrancada à força de seus protagonistas.

Uma voz que carrega as marcas do passado

Grande parte da narrativa chega ao espectador pela voz de Verónica Perrotta, que entrega uma interpretação excelente. Suas dores, lamentações, frustrações e até mesmo a raiva crescente ganham uma força particular justamente pela linguagem cinematográfica escolhida pelos diretores.

Ouvir suas confissões sem acompanhar visualmente todos os acontecimentos torna a experiência ainda mais intensa e dramática. São as nuances da voz que conduzem o espectador pelos sentimentos da personagem, permitindo que a imaginação preencha as lacunas deixadas pelas imagens.

Essa escolha também conversa com a proposta de Cristiane Oliveira, que, em entrevista à Tribernna durante o Festival do Rio, explicou que o projeto nasceu de um incômodo com a dificuldade de diálogo na sociedade contemporânea. A diretora descreveu a narrativa como uma espécie de videocarta que não espera resposta, uma tentativa de comunicação entre mulheres separadas por uma história que desconhecem.

Maria Galant conduz uma descoberta devastadora

Quando a narrativa se volta para Luiza, o filme assume outro tom, mais próximo de uma estrutura ficcional clássica. Maria Galant conduz boa parte dessa jornada praticamente sozinha, com a difícil missão de abrir a caixa de Pandora de sua própria família.

A atriz acompanha a transformação de uma personagem que, inicialmente, tenta compreender mensagens aparentemente desconexas e acaba diante de revelações capazes de abalar tudo o que sabe sobre si mesma. A facilidade com que entramos nessa investigação ao lado de Luiza torna o percurso emocional ainda mais envolvente e fortalece o impacto da conclusão.

Em entrevista ao nosso site, Maria também destacou o caráter experimental da produção e contou que o roteiro não estava fechado quando as filmagens começaram. A equipe desenvolveu a história durante o processo, em uma construção que envolveu descobertas, mudanças e gravações realizadas posteriormente por videochamadas.

Essa liberdade parece encontrar correspondência na própria estrutura do longa. Assim como Luiza precisa reunir fragmentos para compreender sua história, o espectador acompanha uma narrativa que se revela aos poucos, sem oferecer todas as respostas de imediato.

Um pesadelo sobre a impunidade e a memória da ditadura

Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira é um filme-pesadelo. Imagine descobrir que sua própria vida não é exatamente sua, que lhe arrancaram a verdade sobre sua existência e que, no fim, você é vítima e sobrevivente de um crime cujos responsáveis dificilmente serão punidos.

O horror está justamente nessa descoberta, mas também na percepção de que a violência não termina necessariamente quando o crime acontece. Suas consequências permanecem nas famílias, nas identidades e nas histórias que as próximas gerações precisam reconstruir.

O impacto se torna ainda maior quando as cartelas do filme apresentam dados e informações sobre descobertas recentes relacionadas ao legado da ditadura. A realidade invade a narrativa e reforça a dimensão política da história. Não estamos diante de um passado completamente encerrado, mas de feridas cujas consequências continuam exigindo atenção.

Dessa forma, Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira chega em um timing infelizmente oportuno. Mais do que investigar um segredo familiar, o longa nos lembra que ainda há muito a desenterrar da história brasileira. Reconhecer essas marcas é fundamental para impedir que continuem determinando o nosso futuro.

O filme ainda não tem data de estreia no circuito comercial, mas, após sua exibição no Festival do Rio, seguirá para a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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