‘Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira’ aborda os traumas da ditadura que permanecem no presente

Maria Galant | Foto: Claudio Andrade

Os traumas de um período histórico não desaparecem com o fim de uma ditadura. Suas consequências podem atravessar gerações, permanecer em histórias familiares e revelar conexões que, durante muito tempo, ficaram desconhecidas. É a partir dessa relação entre passado e presente que se desenvolve Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira, filme dirigido por Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão.

Em entrevista à Tribernna durante o Festival do Rio, os realizadores e a atriz Maria Galant falaram sobre a construção de uma narrativa que parte de vídeos misteriosos para investigar segredos familiares e acontecimentos relacionados às ditaduras brasileira e uruguaia. Ao misturar ficção, documentário e videocartas, o longa aproxima uma história íntima de questões que atravessam a memória coletiva do Brasil.


Uma história familiar atravessada pela ditadura

A relação entre Porto Alegre e Montevidéu é um dos elementos históricos que estruturam o filme. A narrativa aproxima as duas cidades para abordar a colaboração entre estruturas de inteligência dos dois países, em um contexto marcado pelas ditaduras sul-americanas.

Cristiane Oliveira, natural de Porto Alegre, explicou que essa conexão histórica está diretamente ligada aos acontecimentos apresentados na trama. Para a diretora, o passado político não aparece isolado da experiência das personagens, mas como parte de uma história cujos efeitos continuam presentes.

“Bom, o filme traz um fato que relaciona as duas cidades de Porto Alegre e Montevidéu. Eu sou de Porto Alegre e é um fato que acaba se ligando diretamente com práticas que aconteceram na época da ditadura cívico-militar no Brasil. Então as inteligências de Porto Alegre e Montevidéu já colaboravam desde antes da ditadura. E isso acaba influenciando em fatos que estão na trama do filme”, contou Cristiane.

Gustavo Galvão também destacou a intenção de abordar a relação entre as ditaduras brasileira e uruguaia sem perder de vista a dimensão pessoal da narrativa. Em vez de construir uma história centrada exclusivamente nos acontecimentos políticos, os diretores escolheram acompanhar uma mulher que começa a receber mensagens de alguém cuja existência desconhecia.

“Eu não sou de Porto Alegre, sou de Brasília, mas já tinha filmado também no Sul. Então a gente pensou nessa possibilidade de fazer um filme que mostrasse como as duas ditaduras colaboravam, mas com uma história muito intimista dessa mulher que manda os vídeos”, explicou Gustavo.

Cristiane reforçou essa dimensão contemporânea do longa ao falar sobre os efeitos daquele período na vida das personagens.

“O filme traz as consequências daquele momento na vida atual dessas personagens. É um filme contemporâneo e que traz os reflexos de um trauma vivido e não resolvido no ano passado”, afirmou a diretora.

Gustavo Galvão, Maria Galant e Cristiane Oliveira | Foto: Claudio Andrade

Videocartas para falar sobre aquilo que permanece sem resposta

A memória e a dificuldade de diálogo também influenciaram diretamente a forma escolhida pelos realizadores para contar essa história. Em Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira, os vídeos não funcionam apenas como um recurso para revelar informações sobre o passado. Eles são parte da própria estrutura narrativa e expressam a tentativa de estabelecer uma comunicação que pode nunca se completar.

Cristiane explicou que o projeto nasceu de um incômodo compartilhado pelos diretores com as dificuldades de comunicação da sociedade contemporânea. A ideia de acompanhar uma mulher que tenta se comunicar com uma parente desconhecida surgiu dessa inquietação.

“Esse filme, ele dialoga com linguagens que vão desde a ficção tradicional com documental, mas também com videocartas. Então, esse filme vem muito de um incômodo nosso, que veio da dificuldade de diálogo que a gente vive atualmente, assim. Então, a gente costuma dizer que o filme é como videocartas que não esperam resposta, né? De uma mulher que tá querendo se comunicar com uma parente que ela descobre e que não sabia da existência dela”, contou.

Gustavo acrescentou que essa proposta permitiu incorporar referências de diferentes áreas artísticas e experimentar com a forma do filme ao longo de sua realização.

“Referências muito variadas, assim, não só de cinema, mas também literárias. Mas é isso, artes visuais, documentário, tá tudo misturado, mas veio tudo muito organicamente, assim. A partir do momento que a gente pensou em construir essa narrativa a partir de vídeos, videocartas, a gente já se abriu para todo esse leque de possibilidades. E o projeto foi sendo escrito enquanto a gente fazia mesmo, enquanto a gente filmava, tá? Então, a forma veio naturalmente. E até quando a gente estabelece a forma, a gente também acha formas de subverter a própria forma que a gente criou, porque a proposta também era essa, assim, de não ficar preso a um estilo, a um formato”, explicou o diretor.

A experimentação, portanto, não se restringiu à estética. O roteiro foi desenvolvido durante as filmagens, e a equipe também gravou material por videochamadas posteriormente. A maneira como o filme foi realizado dialoga com a própria narrativa, que se constrói por meio de registros, tentativas de aproximação e descobertas progressivas.

Maria Galant destaca a relação entre a história do filme e os traumas coletivos

Na trama, a investigação de Luísa começa com uma questão pessoal, mas acaba conduzindo a personagem a uma história que ultrapassa sua própria família. Para Maria Galant, essa dimensão coletiva é uma das razões pelas quais o longa merece ser visto.

“Olha, eu vou te dizer que é um filme muito diferente, assim. É um filme de processo, então a gente tinha uma história que a gente queria contar, mas a gente não tinha esse roteiro fechado quando a gente foi filmar. Então a gente foi pro Uruguai, ficamos todos na mesma casa, e dentro dessa casa a gente começou a escrever esse roteiro juntos, escrever essa história juntos, esses detalhes.

Então tudo o que foi acontecendo também foram descobertas que foram acontecendo ao longo do processo. Então assim, tudo, tudo foram descobertas que foram acontecendo, todas as falas, são coisas que a gente ia entendendo quando tava ali, que é assim que o personagem falaria. E é um filme que ele se estendeu ao longo de um período também, a gente ficou gravando coisas por videochamada, depois de um tempo”, contou Maria.

A atriz descreveu a experiência como diferente de outros trabalhos de sua carreira, tanto pela linguagem visual quanto pela forma de construção da narrativa. Ainda assim, ela reconhece na história uma questão próxima da realidade brasileira: a maneira como experiências individuais se relacionam com acontecimentos que marcaram o país.

“Então assim, assistam, é um filme visualmente muito diferente de outras coisas que eu já vi. Mas ele conta uma história que eu acho que também é muito comum pros brasileiros. Exatamente, é muito comum”, afirmou.

Maria Galant | Foto: Claudio Andrade

Um reencontro com uma história que atravessa dez anos

A participação de Maria Galant também marca um reencontro com Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão, cineastas que tiveram papel importante no início de sua trajetória no cinema. Aos 16 anos, a atriz foi convidada para atuar em A Mulher do Pai, primeiro longa de Cristiane e seu primeiro trabalho como atriz.

Ao recordar essa experiência, Maria destacou a confiança que desenvolveu nos realizadores e a importância do incentivo recebido naquele momento.

“A Cris e o Gustavo, eles são responsáveis por eu ser atriz hoje em dia. Quando eu tinha 16 anos, eu tomei um café com eles e eles gostaram muito de mim e me chamaram pra fazer A Mulher do Pai, que é o primeiro filme da Cristina Oliveira e também é o meu primeiro filme como atriz. Então eu acho que também todas as decisões que eu tomei e que trouxeram a minha carreira até aqui, ao longo desses últimos 10 anos, vem muito desse empurrão que eles me deram, de dizer que eu podia fazer cinema e que me colocaram pra caminhar do lado deles”, contou.

A estreia de A Mulher do Pai no Festival do Rio, em 2016, torna o retorno da atriz ao evento especialmente significativo. Dez anos depois, ela volta ao festival ao lado dos diretores e de profissionais que também participaram daquele trabalho.


Exibido no Festival do Rio, Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira segue agora para a Mostra de São Paulo. Ao conectar segredos familiares às marcas deixadas pelas ditaduras, o longa de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão propõe uma reflexão sobre como os traumas do passado continuam reverberando no presente. Uma história que parte da busca por respostas individuais, mas que também convida o público a olhar para a memória coletiva do Brasil e pensar nos futuros que ainda podemos construir.

Você pode ler nossa crítica aqui.

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