Ted Lasso chegou ao fim da sua terceira temporada, e mesmo sem nenhum anúncio oficial da Apple TV dá a entender que chegou ao fim da série. Em uma temporada que dividiu opiniões entre os fãs, a série trouxe uma conclusão coerente com tudo que apresentou durante os seus três anos e vai deixar saudades.
Apesar de utilizar do futebol como base para a trama, o tema central de Ted Lasso sempre foi as relações humanas (tanto que na primeira temporada tem alguns vacilos em relação ao esporte que pode deixar fãs da modalidade incrédulos). A série sempre se mostrou otimista em relação às pessoas e até ao processo das coisas, por repetidas vezes ouvimos Ted dizer “Sucesso não tem a ver com vitórias ou derrotas”. O final da série pode significar bastante isso, para muitos, alguns personagens tiveram pequenas derrotas, para outros pequenas vitórias, mas na visão da série, um sucesso (às vezes mais no sentido sentimental que no sentido financeiro/fama).
Por diversas vezes a terceira temporada deixa de lado os aspectos do desenvolvimento em grupo/time, para explorar desenvolvimentos pessoais de alguns personagens. Parte desses personagens já tinha se plantado uma semente desse desenvolvimento na temporada anterior, outros se deram início neste último ano.
O final da série foi coerente com tudo que foi construído, foi emocionante e ao mesmo tempo cômico. Todos os personagens tiveram as conclusões que caminharam para ter, e por mais que seja satisfatória ou não para quem assiste, dentro do universo de Ted Lasso foram as melhores escolhas possíveis.
Após essa imagem a crítica segue com spoilers!

É difícil passar por alguns pontos dessa temporada sem spoilers, mas que é preciso serem comentados. Iniciando do arco do Colin (Billy Harris) que foi inserido nesta temporada. É algo bastante positivo de ser trabalhado na série, um jogador de futebol gay, um ambiente totalmente cheio de masculinidade tóxica, mas a conclusão fica muito utópica, depois que ele passa pela sua aceitação interna, ele se assume (quase que forçadamente) e todos aceitam ele como se fosse uma compreensão comum da sociedade. Ainda assim, vejo com bons olhos a raiva e o fortalecimento da amizade com McAdoo (Kola Bokinni), que tem um destaque na temporada, mas ainda lhe faltou um desenvolvimento pessoal.
Sam Obisanya (Toheeb Jimoh) se tornou um dos principais jogadores da equipe e teve bastante destaque individual, achei certeiro o retorno do Akufo (Sam Richardson) e a construção de um ser de Sam fora do campo com o restaurante, mas a série mais uma vez deixa um final raso e supomos que o restaurante deu certo, mas fica aquele sentimento que algo faltou.
Outros jogadores também ganharam mais destaque em tela essa temporada, como Zoreaux (Moe Jeudy-Lamour) e Montlaur (Stephen Manas), mas muito mais como alívios cômicos que para serem desenvolvidos.

Nesta temporada tivemos o rápido acréscimo de Zava (Maximilian Osinski) no elenco, que veio mais como uma escada para o desenvolvimento alheio do que para ter uma função individual na trama (além de ter sido uma ótima paródia a Zlatan Ibrahimović). Mas Zava impulsionou o desenvolvimento de um dos personagens mais crescentes da série: Jamie Tartt (Phil Dunster). Iniciando como quase um vilão para o time, um jogador super egocêntrico, Tartt teve todo um arco de redenção e desenvolvimento, terminando como um dos personagens mais queridos do show. Apesar de alguns momentos bem extremos (como ele deitado no colo da mãe nos episódios finais), a evolução dele veio de forma lenta, gradual e bem verossímil.
Outra coisa que Tartt nos trouxe, foi a sua aproximação com Roy Kent (Brett Goldstein), outro personagem que evoluiu bastante durante a série e teve seu ápice na segunda temporada. Nesta terceira ele funciona como uma espécie de mentor para Jamie e em certos pontos a própria trama de Roy fica boa e retrógrada, como todo o seu mundo girando ao redor da Keeley (Juno Temple). Uma das melhores atrizes e personagens da série, com uma evolução absurda, ela sofreu mais do que merecia nessa temporada. Todo o seu relacionamento com Jack (Jodi Balfour) e o episódio em que seu vídeo íntimo foi vazado gerou uma boa discussão, mas na narrativa pareceu forçado e cansativo, mas mesmo assim deu um gancho para ela conquistar o que sempre sonhou. Keeley sempre se demonstrou uma personagem independente e forte, então não existia um final melhor que se tornar uma grande empresária e sem precisar ficar mergulhada nos dramas de homens imaturos e que no primeiro problema vão embora.

Alguns personagens secundários são ótimos e tiveram uma boa presença nesta temporada. Queria ter visto mais do Higgs (Jeremy Swift) e do Beard (Brendan Hunt) em exploração individual, apesar da reta final traçar isso para o Beard, mas pouco pro que ele merecia. Trent Crimm (James Lance) em certos momentos parecia estar ali apenas porque o personagem era bom e não quiseram se desfazer dele, mas ele foi fundamental no arco do Collin e gerou uma bonita cena no episódio final. Rupert (Anthony Head) também teve bons tempos de tela essa temporada, e foi um dos poucos personagens que não teve um arco de redenção, se estabelecendo como um grande vilão e uma pessoa essencialmente mal que não merece ser feliz no final (mais uma vez a utopia da série, mas que faz bastante sentido na sua caminhada otimista).
Falando em vilão, muitos acreditavam que Nathan Shelley (Nick Mohammed) se tornaria um, mas a série não deixaria isso acontecer e foi tudo uma preparação para o seu fortalecimento individual. Seu arco de vilania e depois redenção foi lento, e por muitas vezes chato. A série poderia enriquecer mais seus episódios se tivessem cenas menores de Nathan no West Ham, até porque se provou ser um personagem que não segurava um protagonismo. Toda a sua caminhada resultou no que o personagem sempre quis, que não foi fama e dinheiro, mas se sentir parte de algo, acolhido e reconhecido.
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Rebecca (Hannah Waddingham) sempre foi uma personagem bastante carismática, e mesmo na primeira temporada quando parecia ter más intenções, ela conseguiu ganhar o público. Nessa última temporada ela ganhou força, mas a narrativa não foi bondosa com ela, empurrou ela para uma busca de um romance e sua relação com a maternidade. É bastante verossímil e sabíamos que ela tinha esse desejo desde o início da série, mas ela mudou com o decorrer das temporadas e por vezes não vimos isso em seu desespero. O final dela foi feliz, conseguindo um homem que já veio carregado de uma filha, realizando o sonho dela ser esposa e mãe em um relacionamento saudável. A série flertou em jogar tudo pro alto e fazer ela vender o clube, o que seria bastante simplório para a personagem, mas felizmente isso não aconteceu.
Chegando ao personagem principal da série: Ted Lasso (Jason Sudeikis). Desde o início estava bem claro do que lhe aguardava no seu final. Toda a sua trajetória foi de ir para longe de casa para se recuperar das suas feridas, para enfim poder voltar em paz. Claro que a série consegue um ótimo motivo para ele voltar, que é a saudade do seu filho, mas prestando a atenção nas entrelinhas sabia que a série ia resultar nisso. Por mais que fosse um final feliz ele recuperar o amor da ex-mulher, não era isso que Ted precisava, ele precisava fazer as pazes consigo mesmo, e no final o ex-casal tem uma conclusão satisfatória de boa relação (mesmo que ela tenha terminado com um cara aparentemente insuportável, quem é que fica falando merda durante um jogo decisivo?).
Esse é o fim, esse é o apito final de Ted Lasso, sem prorrogação, sem disputa de pênaltis. Essa caminhada não foi sobre vitórias, o Richmond não foi campeão, não foi sobre o que você queria, Ted não voltou com a ex-mulher, Sam não ficou com Rebecca, a série foi sobre evolução humana e amadurecimento, sobre que as pessoas podem mudar e você pode ser feliz. Believe.
NOTA: 4/5





