3T INDICA | ‘Umbigobunker!?’, de Jay Vaquer: uma obra-prima do pop rock brasileiro

Com uma carreira extensa, hits que marcaram a MTV e a TV União (do/no Ceará), Jay Vaquer comemora este ano vinte anos do seu primeiro disco lançado, o Nem Tão São. Tendo como trabalho mais recente o álbum Ecos do Acaso e Casos de Caos, de 2018, um de seus discos mais marcantes, no entanto, é o Umbigobunker!?, de 2011.

Nesse disco Jay parece encontrar o equilíbrio perfeito entre a sua conhecida ironia ácida e uma escrita mais sofisticada e emblemática, com uma sonoridade madura e uma produção arrojada de Moogie Canazio, o que lhe rendeu inclusive indicação ao Grammy Latino 2012 na categoria de Disco Mais Bem Produzido do Ano.

O quinto álbum de estúdio do carioca começa com Meu Melhor Inimigo, que dá o tom do trabalho: arranjos e letras no nível da excelência. Agitada e marcada pela bateria e teclado, Jay explora sua voz por entre a melodia e já nos presenteia de cara com sua potente extensão vocal, como é de costume e como repete pelas próximas canções.

Continuando com Dia Desses, o disco encara uma composição mais apaixonada e óbvia. A escrita mais melancólica, mas ainda dotada de crítica, vem à tona. Com um refrão mais explosivo, Dia Desses evolui ao longo dos versos e encontra na sua sequência, Ah, mas bem que você gosta (Coprófaga), uma das letras mais escrachadas do cantor. Ao relatar sobre como era tratado em uma relação passada, a composição encontra uma nada convencional comparação: se ele é um bosta, a pessoa que gosta dele só pode ser coprófaga – procure sobre esse termo/fetiche e se choque -. A guitarra mais aparente é essencial na construção dessa história.

Personal Saturno, Júpiter Privê e Umbigobunker!? quebram um pouco a sequência e oxigenam o disco com composições mais intimistas e “líricas”, mas sempre acompanhadas de um arranjo robusto que acompanha todo o álbum – destaque ao final meio “folclórico” da primeira, que enriquece a sonoridade do álbum e ao delicioso teclado de Umbigobunker!? -.

Mas não demora muito e a veia crítica de Jay Vaquer salta novamente em Do nada me jogaram aos leões, acompanhado por ninguém menos que Maria Gadú. O resultado é uma canção potente recheada de subtextos.

Se é que sonhei (aquele sonho “esquizo”) é uma espécie de baladinha e Fabulosa Santa que Pariu é ácida e direta ao ponto, com sutis instrumentos e um refrão bem marcado por palavras arrastadas e a região vocal mais aguda de Jay, dando uma certa aparência de “grito”, “sufoco” que pode ir ao encontro da letra. Presença Hecatombe e Ritual da Chuva Seca seguem apostando em versos mais contidos e refrões mais explosivos.

Por sua vez, E Assim, saltar e Quase Linda História de Amor são baladinhas que voltam a destacar o processo de composição de Jay e encerram o Umbigobunker!? de forma sutil, delicada e competente.

É notório e sempre importante lembrar sobre o processo de criação e produção de Jay Vaquer. Em mais um trabalho primoroso, o artista parece pleno de suas capacidades ao apostar em suas melhores facetas enquanto compositor e cantor. Infelizmente o carioca e sua obra prima específica analisada aqui ainda permanecem subestimados. Uma pena, quem perde é o potencial público que continua sem um acesso mais efetivo a artistas deste naipe num país tão rico, por conta da dinâmica da indústria cultural que por tantas vezes atropela a qualidade em prol de vender plástico.

De qualquer forma, Umbigobunker!? mantém seu sentido de urgência presente em vários momentos e permanece atual mesmo diante do lapso de nove anos, provando que toda arte bem feita é oposta a um Umbigobunker: sai do artista e ganha o mundo.

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