CRÍTICA | A Bola Preta: uma tragédia queer sobre amor, memória e liberdade

Escolhido para ocupar o espaço de renome como filme de abertura do Festival do Rio 2026, o longa dos espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi (“Los Javis”) ganhou o prêmio de Melhor Direção e 20 minutos de aplausos de pé em sua estreia no Festival de Cannes.

A exibição exclusiva de A Bola Preta aconteceu no Cine Odeon, na última quinta-feira (1º), na noite mais esperada do ano pelos cinéfilos cariocas. Com previsão de estreia no circuito comercial nacional para 21 de janeiro de 2027, o filme é majestoso em sua tragédia e, ao fim de 2 horas e 35 minutos de duração, entendemos por que recebeu o privilégio de iniciar a 28ª edição do Festival.

Uma tragédia clássica em forma de cinema

A Bola Preta acompanha a história de três homens em diferentes momentos da Espanha: 1932, durante a Guerra Civil, em 1937, e em 2017. Inspirado em uma das últimas obras inacabadas de Federico García Lorca, o épico queer atravessa gerações para falar sobre desejo, sexualidade, dor e herança, refletindo sobre como o amor e a identidade resistem à guerra, à repressão e ao silêncio.

Com uma das aberturas mais impactantes da década, o filme é quase uma ode à tragédia clássica do teatro. A Bola Preta bebe do gênero em sua composição visual, narrativa e até na montagem. Dividido entre três núcleos protagonistas que compartilham um elo em comum, o longa desafia o espectador a criar empatia por um soldado que está do “lado errado da história”. Por mais que, em teoria, essa seja uma tarefa quase impossível nos tempos em que vivemos, a sensibilidade do filme é tão grande que nos faz abraçar toda a dor vista em tela.

Uma montagem que desafia o espectador

Um dos pontos mais interessantes do filme é sua montagem e sua trilha sonora. Quanto à montagem, o filme utiliza uma narrativa quebra-cabeça, que nos faz questionar por que aquelas três histórias estão sendo contadas de forma simultânea e qual é a ligação entre elas. Aos poucos, como em um trabalho de detetive, vamos descobrindo e unindo as peças. Ao fim, a carga dramática é elevada à máxima potência, e podemos enxergar como o passado pode curar as feridas do presente.

Quanto ao som, podemos assumir que ele é quase o quinto protagonista do filme, ao lado de Guitarricadelafuente, Miguel Bernardeau, Carlos González e Milo Quifes. O uso do silêncio é inteligente e de suma importância para criar tensão, seja ela sexual ou relacionada ao temor de perder a própria vida. A música também trabalha muito bem quando o filme flerta com o musical. Penélope Cruz surge para transformar a dor em arte, assim como Milo Quifes, que, apesar de não cantar, possui performances de dança que nos transportam para a confusão de sua realidade.

O próprio título do filme conversa de maneira poética com a discussão central sobre a liberdade de ser quem você é dentro de uma sociedade que determina quem merece ou não pertencer. Em uma eleição para ser aceito em um cassino, o personagem de Milo Quifes tem sua sexualidade exposta e recebe as chamadas “bolas pretas”, votos negativos que impedem sua entrada naquela pequena sociedade masculina. A cena representa sua exclusão social e a forma como aqueles homens determinam que ser quem ele é está errado — e, portanto, que ele não é merecedor de ocupar aquele espaço. Um espaço que, posteriormente, seria destruído de maneira simbólica e literal pela resistência espanhola.

Desejo, silêncio e tensão sexual

A direção de Los Javis lembra muito a de Luca Guadagnino quando falamos de corpos e tensão sexual. Digo isso no sentido de que não há absolutamente nenhuma cena de sexo explícito no filme, mas ele carrega uma emoção tão à flor da pele na forma como é conduzido que leva os sentidos para a tela de maneira íntima.

Bem, na verdade, há apenas uma cena de sexo no filme, mas ela ilustra um momento, e não um desejo reprimido. É isso que a diferencia das demais e justifica por que ela passa tão batida, enquanto as outras permanecem com o espectador de forma proposital.

As atuações que deixam marcas

Os destaques do filme são, sem dúvidas, Guitarricadelafuente e Miguel Bernardeau. A sensibilidade na atuação dos atores comove e deixa marcas para além dos créditos finais. É doloroso, mas revelador. Após a minha sessão, ficou bem claro o porquê de tanto o filme quanto os atores estarem no radar do Oscar.

Um filme sobre memória, liberdade e gerações

A arte também ocupa um papel fundamental em A Bola Preta, não apenas como ferramenta de expressão e refúgio, mas como registro de uma história que não pode ser esquecida. Ao fazer da obra de Federico García Lorca um dos pilares da narrativa, o filme evidencia a importância da arte como documento de seu tempo e como forma de preservar memórias que poderiam ser apagadas pelo silêncio e pela repressão. Afinal, registrar também é resistir — e, nesse sentido, o próprio filme se torna uma forma de manter essas histórias vivas.

A Bola Preta é um filme sobre avô e neto. É daqueles tipos de filmes em que a revelação do passado cura o presente. A mudança de perspectiva, de ter ciência de que sua dor é compartilhada e de que houve uma realidade em que sua liberdade era privada, muda a forma como enxergamos nossa realidade e como lidamos com a vida.

Talvez até nos faça ser mais gratos e motivados a não repetirmos os mesmos erros do passado. Até porque a liberdade não é uma garantia plena e, em tempos de ascensão do conservadorismo, ela é um dos primeiros direitos a serem colocados em xeque.

Vale a pena assistir a A Bola Preta?

E A Bola Preta ainda tem muito a dizer para além do que eu consigo trazer nesta crítica. O filme usa o cenário de guerra e repressão para exteriorizar aquilo que muitas vezes não conseguimos enxergar dentro dos personagens. Em alguns momentos, ele chega a ser cruel e sanguinário, mas essa violência não está ali apenas pelo impacto: ela é essencial para compreender os personagens, suas dores e tudo aquilo que eles carregam, mesmo quando não conseguem colocar em palavras.

Se você estava na dúvida de ver o filme, tire-a agora da sua mente. A Bola Preta é um dos filmes mais esperados do festival — e com razão. A experiência é inebriante, apaixonante e inesquecível.

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