CRÍTICA | Ainda está valendo falar sobre Acampamento Miasma?

Não é novidade que vivemos em um mundo instantâneo. Uma semana o assunto é Homem-Aranha, no outro é Acampamento Miasma, na seguinte já vem o próximo lançamento. Porém as obras de arte não são miojo, produzidas em 3 minutos, para serem consumidas rapidamente. É preciso pensar, processar e entender não apenas o que nos querem passar, mas também como nos sentimos diante do que vimos na tela.

Acampamento Miasma me causou esse processo lento, para digerir cada sabor, cada tempero, cada textura diferente que o filme apresenta. A obra de Jane Schoenbrun (Eu vi o Brilho da TV) nos apresenta Kris (Hannah Einbinder), uma jovem diretora queer que comanda a sequência de uma franquia de slasher e fica obcecada em escalar a final girl (Gillian Anderson) do filme original, levando ambas as mulheres a um caos psicológico e sexual.

Acampamento Miasma e a força da metalinguagem

Acampamento Miasma se concentra totalmente nas suas duas protagonistas. Pessoalmente, me agrada longas que se passam em poucas locações e com poucos personagens. Schoenbrun ele a metalinguagem em toda a sua potência para construir sua obra, ficando mais evidente ao final, porém para quem tem repertório em slasher percebe as suas referências e similaridades com os clássicos do gênero. O próprio filme dentro do filme é uma alusão clara a Sexta-Feira 13, com elementos de outros marcos.

O filme questiona os clássicos do terror

Mas Acampamento Miasma não é apenas uma obra que vem para fazer referências e homenagear os clássicos. Muito pelo contrário, o filme tensiona essa relação. Jane pega os dois extremos e nos diz “olha, não é bem assim”. Obras mudam o cinema não são imaculadas, assim como não precisamos jogar fora aquelas obras problemáticas. Precisamos olhar para elas com os olhos de hoje, mas também entender a visão da época em que foram feitas.

Acampamento Miasma e os filmes de sequência-legado

Pela própria trama do filme, ele também pensa muito sobre as sequências-legados (requel), que é quando um filme resgata uma franquia, porém também consegue contar uma nova trajetória a partir desse ponto (como Pânico de 2022 e Star Wars: O Despertar da Força). Mas a diretora faz esse tensionamento sem cair em um lugar comum, ela reflete sobre como recuperar essas obras para não ficar limitados em um lugar confortável e sem originalidade.

Corpos, fluidos, sexo e horror

Mas o que mais chama a atenção em Acampamento Miasma não é a metalinguagem e o terror. Na fala das suas próprias personagens, o filme grita que é sobre “corpos e fluidos”. Schoenbrun tensiona a linha entre o horror e o sexo. Ela coloca uma relação intrínseca entre essas realidades e nos faz pensar de onde vem o tesão. A sexualidade das personagens está para além de um prazer corpóreo, muito pelo contrário, os seus auges só vem depois de se sentirem vivas (ou perto da morte).

A diretora consegue construir muito bem a diegese. Cada detalhe, cada experimento, leva a narrativa e suas protagonistas para um lugar incomum. Mas é nesse novo lugar que elas conseguem encontrar a si mesmas e sentir o prazer que tanto buscavam.

As atuações de Hannah Einbinder e Gillian Anderson

Não me aprofundei sobre as atuações, mas é preciso deixar registrado que Hannah Einbinder e Gillian Anderson estão espetaculares em seus papéis e conseguiram construir uma química que transborda vontade e desejo na tela.

Vale a pena ver Acampamento Miasma?

Acampamento Miasma é um daqueles filmes da temporada de ame ou odeie. Jane Schoenbrun traz sua perspectiva própria para o cinema de terror, principalmente slasher, tensionando com algumas interpretações que se tornaram quase canônicas. O filme não é para todos os públicos, é preciso assistir de cabeça aberta, porque ela vai mexer com seus sentidos (em diversos âmbitos) e se você espera algo mais contigo, com certeza vai ficar decepcionado.

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