A autora best-seller de A Cirurgiã , lançou em abril deste ano o seu mais novo suspense através da Faro Editorial, “O Hospital“. Leslie Wolfe brinca com seus leitores em uma trama de incertezas e desconfianças, enquanto navega em um mar turbulento de memórias de uma mulher sobrevivente de um ataque terrível.
No livro “O Hospital” Emma Duncan acorda sem memória, cega e com a certeza de que alguém tentou matá-la. Presa em um hospital, ela se sente ameaçada em vez de protegida, enquanto tenta reconstruir quem é e o que aconteceu. Fragmentos do passado revelam uma vida glamourosa como atriz e um casamento com um famoso diretor, mas logo ela percebe que muitas dessas lembranças pertencem a um tempo distante. Cercada por mentiras e versões conflitantes vindas de médicos, familiares e amigos, Emma não sabe em quem confiar — e precisa desvendar a verdade escondida em sua mente antes que o perigo a alcance novamente.

Em apenas 256 páginas, Leslie Wolfe consegue construir uma atmosfera tão intensa que pode chegar sobrecarregar o leitor. Munido de desconfiança de tudo e todos, quem lê fica na mesma posição da protagonista da história: completamente no escuro. Tendo somente sua audição como seu guia, Emma narra os acontecimentos da sua nova prisão, reconhece pessoas por andares ou cheiros, procura pistas em cochichos e teme que seu agressor volte novamente para terminar o serviço.
A história de Emma Duncan é um fruto das consequências da misoginia ao seu redor. Os homens da sua vida, ou que já passaram por ela, expõem o efeito do patriarcado na sua vida pessoal e profissional. Subjugada, rotulada, diminuída e com seus sonhos arrancados de suas mãos quando enfrenta qualquer figura de “autoridade” masculina, Emma não é uma vítima, ela é uma sobrevivente de todos os males psicológicos e físicos que sofreu.

Apesar de ainda surgir uma amizade genuinamente boa ao longo do livro, como sua agente Denise, a sensação que fica é que Emma também é uma mulher solitária. Sem poder recorrer ao auxílio de sua mãe doente, além de ter uma amiga atriz superficial e fútil, e até mesmo sem a confiança das pessoas esperadas, influenciadas pelo seu estado mental atual, Emma procura refúgio na escuridão de suas lembranças. Deste modo, a primeira metade do livro consiste em uma narrativa que pode ser considerada lenta, a autora não se apressa em explorar as memórias da protagonista e foca em seu estado atual, nos fazendo imergir na ambientação de seu aprisionamento físico e mental.
Ainda assim, para mim, a escrita era tão intensa e tensa que não senti a lentidão apontada por outros leitores nessa etapa. A trama está longe de ser enfadonha ou repetitiva, pelo ao contrário, ela é escrita de modo que a imersão seja tão fácil que a própria paranoia da protagonista afeta o leitor, que passa a desconfiar de tudo e todos.
O Hospital é um suspense delicioso de ler, fácil mas intensamente dramático. Contém diversos tipos de violência contra mulher, exibe gradativamente os sinais vermelhos que aparecem em relacionamentos amorosos, enquanto constrói em Emma uma protagonista forte, destemida e incapaz de ser rotulada como vítima, sobrando apenas um adjetivo capaz de defini-la: sobrevivente.
Nota: 4,5/5