Todo ano no Oscar tem alguns filmes que recebem diversas indicações, mas passam despercebidos, ou tem reações negativas de boa parte de quem assiste. Um dos filmes que se encaixa nisto no Oscar 2024 é Ficção Americana (American Fiction), que chegou na Prime Video no Brasil no dia 27 de fevereiro.
O longa que marca a estreia de Cord Jefferson na direção, e teve o roteiro adaptado do livro Erasure, foi indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Sterling K. Brown), Melhor Ator (Jeffrey Wright) e Melhor Roteiro Adaptado, sendo esta última categoria pela qual ganhou a estatueta.
Ficção Americana traz Monk (Jeffrey Wright), um escritor negro brilhante, mas seus livros não são populares já que ele se recusa a retratar negros de forma estereotipada em seu trabalho. Após conhecer a obra de Sintara (Issa Rae), ele escreve uma história carregada de preconceitos como uma piada, porém essa piada acaba indo longe demais.
Apesar de procurar não ser didática, o filme deixa bem explícito ser uma crítica a estereotipagem de personagens negros enquanto personas superficiais, rasas e violentas, como também critica o fetichismo branco por obras que retratam negros desta forma enquanto esboçam um falso antirracismo por acharem que estão dando espaço para os “negros de verdade”.
No papel de Monk, Jeffrey Wright faz jus a sua indicação de melhor ator, nos entrega um personagem ranzinza, duro, que muito provavelmente não conseguiríamos conviver com ele no dia-a-dia, mas também nos envolve na sua história e nos aproxima de suas problemáticas e problemas. O personagem principal de Ficção Americana nos prova que para um protagonista ser eficiente, ele não precisa ser uma persona de bom relacionamento, carismática, nos mostra que pessoas ranzinzas também são protagonistas de histórias.

Alguns dos nomes grandes que aparecem como propaganda do filme são praticamente participações especiais de luxo (não direi quais aqui para te surpreender), porém um que tem bom destaque é Sterling K. Brown, em uma atuação que não considero a sua melhor, mas é sim boa a ponto de valer a sua indicação na premiação mais importante de Hollywood. Ele dá vida a um personagem desesperançoso, mas que ainda se preocupa com os outros a sua volta.
Apesar das subtramas não parecerem tão ricas, principalmente a do interesse amoroso de Monk, todas tem uma condução satisfatória. A linha principal de Ficção Americana é o que gera a polêmica, alguns podem achar a crítica muito dura, outros muito rasa, e ainda tem aqueles que nem entendam muito bem o que o autor quis criticar. Estereótipos são arquétipos problemáticos que influenciam a vida da população negra desde sempre, durante muito e muito tempo a mídia e o entretenimento só conseguia representar pessoas negras de forma racista e negativa (muito disso repercute até hoje), influenciando até mesmo produções escritas por pessoas negras para que consigam entrar no mercado, seja editorial, seja cinematográfico ou qual mídia for.

American Fiction nos dá um tapa na cara, que apesar de encontrarmos mais autores, autoras e personagens negros e negras nas produções atualmente, a lógica da branquitude permanece a mesma de privilégio para os não racializados. Enquanto as pessoas negras “ganharam o direito” de escrever suas histórias, para a indústria elas também ficam restritas a contar apenas suas histórias. E, obviamente, Ficção Americana é uma produção dentro da própria indústria que ela crítica, o que deixa aquele gosto amargo de que talvez não dê em nada.
NOTA: 4/5