Com um humor irreverente, imprevisível e bizarro, “Saltburn” chegou na Prime Video na última sexta-feira (22) conquistando a atenção dos amantes de thriller psicológico regado de comédia ácida. Escrito e dirigido por Emerald Fennell, o longa teve sua estreia no 50º Festival de Cinema de Telluride e gerou uma certa comoção e curiosidade entre aqueles que consomem avidamente a sétima arte. Mas, afinal, “Saltburn” realmente é tudo que promete ser? E eu digo que, não. Porque ele é muito mais além do que poderíamos imaginar.
A trama se passa nos anos 2000 e acompanha o estudante universitário Oliver Quick (Barry Keoghan), que tem dificuldades para se encaixar na Universidade de Oxford. Após conhecer Felix Catton (Jacob Elordi), Oliver é imediatamente atraído pelo mundo aristocrático do jovem – que o convida para passar uma temporada na casa de sua família. Mas o que começa como uma amizade aparentemente inocente logo escalona para uma crescente obsessão.

Com 2 horas e 07 minutos de duração e filmado na casa de campo Drayton House em Northamptonshire, “Saltburn” transporta o espectador para um passado recente e constrói uma ambientação sólida para transmitir a sensação de poder e familiaridade, ao mesmo tempo. À principio o que mais chama atenção é o uso do espaço e da percepção da audiência diante dos cenários expostos, a direção de fotografia de Linus Sandgren (Babilônia) exerce um papel fundamental para entendermos as nuances que a história carrega para si, seus altos e baixos e os anseios que provoca no protagonista. Seja em momentos mais intimistas, que provocam uma certa noção de comunhão, ou em momentos mais extravagantes que trazem o puro luxo aristocrata inglês, o diretor é exímio em retratar com eficiência a podridão hipnotizante do que a obsessão humana pode levar a ter.
Com grandes personalidades no elenco, como Barry Keoghan, Jacob Elordi, Rosamund Pike, Carey Mulligan e Archie Madekwe, a cineasta Fennell consegue trabalhar muito bem com a sensação de estranheza que paira entre eles. Com nenhum personagem a salvo, Fennell cria uma situações em que é notável que a essência mais desprezível da humanidade é a única coisa que todos personagens compartilham entre si. Entre manipulações, liberdade e extravagância sexual, além de uma dissociação com a realidade, “Saltburn” provoca em quem assiste o sentimento majoritário de sua história: a obsessão. Ver todos perdendo os sentidos aos poucos, se rendendo a loucura e a sendo vítimas de suas escolhas, é quase um prazer sádico de assistir. É bizarro e, ainda assim, genial.

Com “Bela Vingança” em seu currículo, Emerald Fennell sabe construir uma tensão que emerge gradativamente, criando uma perseguição antes mesmo de você notar que tudo que acontece em “Saltburn” é um jogo de poder. Assim, sua direção foca em provocar o espectador com o conflito de realidades entre os personagens, dar motivos para justificar o final ou contextualizar o cenário em que vivem para gerar alguma compaixão. O filme é aberto a sensação conflituosas e diversas do espectador, afinal, como eu já disse, tudo que eles compartilham é sua devassidão.
“Saltburn” é definitivamente um filme para ficar de olho. Com atuações surpreendentes e uma direção de fotografia excelente, o longa acaba por quebrar todas suas expectativas (sejam elas positivas ou negativas) ao construir uma jornada imprevisível, bizarra, cruel e esmagadora.
Nota: 4,5/5