Lançado em julho deste ano pela Editora Planeta, “A Inquilina Silenciosa”, da autora Clemence Michallon, é uma obra difícil de ser digerida, ao tempo em que o método de construção da sua narrativa faz dela uma leitura imersiva e impossível de ser interrompida.
Neste thriller de 304 páginas conhecemos Aidan Thomas, um homem exemplar, querido pela família e pela vizinhança. Mas, mesmo com sua boa fama, os habitantes da pequena cidade em que ele reside não sabem o seu maior e tenebroso segredo: ele é um serial killer, que já fez 8 mulheres vítimas e mantém 1 sob seu domínio em cárcere privado.
Apesar desta sinopse, o livro deixa de fora o ponto de vista do grande vilão e foca em dar voz às mulheres que o cercam. Além de breves aparições de suas vítimas, observamos a rotina comum e de sobrevivência de sua vítima Rachel, sua filha Cecília e seu possível interesse amoroso Emily. Intercalando em capítulos curtos de perspectivas diferentes, a autora nos presenteia com algo que flerta com nossa realidade: um homem abusivo, um assassino, um opressor, pode ser também o cara mais gente fina que você vai conhecer.

Com capítulos intercalados, Michallon faz do livro algo dinâmico. Até porque, ao meu ver, se todas as 300 páginas fossem um guia de sobrevivência, acredito que “A Inquilina Silenciosa” seria monótono, repetitivo e perderia um pouco da essência da mensagem que a autora quer passar. Ainda assim, vale ressaltar que os capítulos focados em Emily (o interesse amoroso) são os mais fracos, mesmo que sejam essenciais para compreender o modus operandi do assassino e como ele se camufla na sociedade, sua paixão cega e seus devaneios românticos tiram de sério o leitor que nutre ódio pelo personagem desde dos capítulos iniciais. Se fosse para mudar alguma coisa, eu diminuiria os capítulos dessa personagem.
Contudo, “A Inquilina Silenciosa” é excepcional na criação de Rachel e Cecilia, duas personagens que se encontram na adversidade e compõe um jogo de sobrevivência hipnotizante. Mesmo que a filha não saiba de nada, sua compaixão e solidariedade se tornam o combustível necessário para a sobrevivência da nossa protagonista.
“A Inquilina Silenciosa” é um livro que não mede palavras para ilustrar a violência da mulher, não é conivente com estereótipos de homens como o antagonista e nos apresenta a realidade de um assassino sem rosto padronizado. Apesar de toda intensidade e densidade que sua história perpetua até as páginas finais, acredito que esta seja uma leitura essencial e até mesmo fácil de ser consumida pela fluidez e domínio da escrita criativa da autora, que cria momentos intercalados para suavizar uma história que causa tanta tristeza e revolta.
Nota: 4/5








