RESENHA | “Cidade dos Pecadores” eleva o terror nacional em uma trama instigante e surpreendente

Esse texto não contém spoilers

Com 242 páginas, Ronald Aquino consegue construir em “Cidade dos Pecadores” uma ambientação sombria, pecaminosa e aterrorizante. Através da perspectiva de um jovem padre falho, o livro é uma ótima surpresa dentro do cenário nacional do terror.

No livro conhecemos Louis, um neossacerdote da Grande Cidade. Extremamente metódico e ansioso, desperta admiração em todos, desde sua época de seminário. Após um tempo atuando na paróquia, recebe a missão como pastor em uma comunidade isolada no Vale de Heu, aos limites do continente. Chegando lá, o jovem padre precisa lidar com a insegurança, o desconforto e a estranheza dos novos e caricatos fiéis, ao passo que presencia acontecimentos desoladores. Com uma crise alimentícia iminente, corpos se espalhando pelas vielas e corações cada vez mais amargurados, os moradores se veem questionando a própria sanidade, enquanto Louis, sua fé. (*)

O começo por mais instigante que seja, pode se tornar um pouco confuso para quem não tem familiaridade ou não conhece dialetos católicos. O autor ambienta o leitor com a perspectiva do protagonista, que é um padre tão devoto, carregando consigo modos e trejeitos tão metódicos, que podem ocasionar, a alguns leitores menos habituados, uma certa dificuldade inicial para se conectar com a história. Todavia, isso não se estende por muito tempo. No primeiro encontro com habitante do Vale de Heu, Aquino consegue captar atenção até daqueles que não costumam ler com frequência esse gênero.

Cidade dos Pecadores

Uma das melhores qualidade em sua escrita se dá pela incrível habilidade em inserir um mistério sem tornar tudo tão evidente e explícito. A sensação que se instaura é de que algo de muito errado está acontecendo, e você simplesmente não sabe o que é! A principio é comum imaginar que ele está somente em um lugar com pessoas preconceituosas, corruptas e fanáticas religiosas. No entanto, isso se eleva de um modo tão gradativo que você é pego inserido em algo mais sobrenatural de forma inesperada.

O estilo literário de Aquino traz uma sutileza ímpar em abordar temas mais sensíveis e seduz com o terror como seu principal e melhor aliado. O desenvolvimento e o conhecimento do leitor perante o protagonista é bem imersivo, o autor é cuidadoso em não revelar demais em momentos em que o drama se eleva e a história toma um rumo mais pessoal. Sendo sugestivo, Ronald pede ajuda a quem ler para montar um quebra-cabeça macabro, procurando sentido em uma comunidade fadada a eternidade no inferno.

Durante minha leitura fui pega por diversas vezes tentando desvendar os mistérios ocultos deixados pelo autor. Seja em diálogos específicos ou personagens apresentados. Me forcei a fazer ligações e criar teorias, não porque a história exigia isso, mas porque o livro me motivou a descobrir o além das palavras escritas, a pretensão do autor em elaborar e criar as personalidades tão incomuns e atrativas. Esse é o tipo de livro que é “Cidade dos Pecadores“. O tipo de livro que provoca o leitor de maneira que o tire da sua zona de conforto e o faça reagir a tudo que lhe é apresentado.

Cidade dos Pecadores” é um livro que trabalha com um terror reflexivo, flertando com o existencialismo. Se, por acaso, você não tenha conseguido pescar as dicas do autor no decorrer da história, ao fim ele deixa tudo em evidência; suas reais intenções diante de uma história quase metafórica. Com um final teatralizado, digno daquelas conclusões dos melhores filmes com reviravoltas, a história se encerra de um modo que o leitor fique pensando nela por dias a fio. O impacto da história é avassalador, bem como as consequências de uma vida pecaminosa…

Você pode adquirir o livro físico pelo site da Editora Flyve ou ler a versão digital na Amazon.

Nota: 4/5

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