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CRÍTICA | ‘O Menino que Matou Meus Pais’: versão de Suzane von Richthofen já é fictícia por si só

Com a atuação impecável de Carla Diaz, em dois filmes somos convidados a retornar a uma das histórias mais chocantes do país: o assassinato dos pais de Suzane von Richthofen. Este texto é sobre ‘O Menino que Matou Meus Pais‘. Para ler sobre ‘A Menina que Matou os Paisclique aqui.

As tramas de ambas versões já têm início na noite do crime e a partir disso voltam no tempo para explicar o que aconteceu segundo a visão dos dois envolvidos. Somos aqui, então, levados a entender a versão apresentada à polícia por Suzane da história. Enquanto enfrenta seu julgamento no Tribunal, a jovem conta como conheceu Daniel e como foi “seduzida”, quase que “obrigada” a matar os próprios pais. Essa narrativa, desacreditada pela polícia, beira o cinismo. Em tela, no entanto, ao menos a temática sobre relacionamentos abusivos pode produzir algum efeito reflexivo no espectador.

O longa faz questão de enfatizar, em sua abertura, que a história, apesar de ser uma “simulação”, é baseada nos autos dos processos. Ainda assim, certas passagens parecem contar uma versão tão distorcida de Suzane que até em uma trama fictícia se torna difícil de acreditar. É que a menina doce, quase que sem culpa de nada, parece às vezes irreal, provavelmente porque é, afinal de contas, as investigações concluíram que ela participou ativamente de todo o plano (no final das contas, a verdade sobre o crime parece ter sido um pouco das versões de cada um).

Apesar da duração curta, fazendo do longa quase uma história episódica de série, a direção de Maurício Eça acerta em diversos momentos e sabe conduzir os personagens, criando um ritmo que prende. Mérito também para a fotografia sempre fria e a trilha sonora que se mescla com hits dos anos 2000. Meio ‘Malhação‘, o roteiro do longa não tem como fugir do vazio que são as versões contadas por Daniel e Suzane, na época jovens próximos aos vinte anos (e com “cabeças de vento”). Por mais que a história pareça boba, rasa, é exatamente assim que são os depoimentos de ambos. Chega a causar riso algumas cenas absurdas que ambos contam em seus depoimentos como se alguém fosse acreditar, não é necessariamente culpa do longa reproduzi-las em tela. Enquanto um filme fincado nesses depoimentos, seria difícil conseguir aprofundar, a não ser que de forma inventada, o que não parece ter sido a ideia da produção.

Apesar de Carla carregar o filme nas costas, Leonardo Bittencourt é parte importante e está excelente. Todos os atores estão bem em seus papéis. E algumas das cenas são absolutamente constrangedoras. Um ponto importante de ‘O Menino que Matou Meus Pais‘ é o contexto das famílias envolvidas no crime. De fato, a disparidade entre as duas famílias e a questão de classes são temas principais aqui e nos fazem pensar sobre o próprio país e a diferença entre rendas que separa as famílias brasileiras de forma tão abrupta que parece que cada uma vive em seu própria mundo, como Marísia (Vera Zimmermann) diz. O longa expõe um pouco do lado mais podre e preconceituoso da classe média.

Ao trazer uma versão bastante “neutra” de seus pais, vítimas, ‘O Menino que Matou Meus País‘ centra a história em Suzane e Daniel, mas principalmente em Daniel, um péssimo e abusivo namorado. Como já mencionado, Suzane aqui é uma pobre coitada indefesa, em busca de se inocentar do caso. Aliás, a caracterização de Carla durante o julgamento, com terço em mãos, revela a estratégia da defesa de transformá-la numa dócil e manipulável garota.

Deixando a sensação de falta de motivação que o próprio crime possui, a trama talvez tenha como seu maior mérito não justificar ou romantizar o crime. Na verdade, não cria nenhuma linha narrativa nova. A única função do roteiro é mostrar duas versões de uma mesma história já conhecida. Não há o menor espaço para justificativas, para “humanização” dos personagens. Você sabe quem são as pessoas em tela, você sabe o final dessa história. O roteiro é bastante imparcial e nunca deixa de te lembrar que essa é apenas a visão de Suzane, longe de ser a verdade ou o que realmente aconteceu, coisa que em momento algum o longa busca. Ao se descomprometer, esse “true crime” não serve peripécias narrativas para transformar esta história em outra que não é.

Um aspecto negativo decorrente disso é que a história conta até o momento do crime, não mostra a troca de acusações e todo o pós-crime, o que poderia ser muito interessante. E não aprofunda os personagens. Os momentos constrangedores são os melhores e a sucessão de eventos que leva ao “trágico” dia 31 de Outubro te leva a entender a história. Não há nenhuma relevação bombástica, o grande choque é a forma como o crime é reproduzido aqui, mesmo que não mostre muito do momento do assassinato (o que é bom: não precisamos ver ninguém sendo morto). Há uma sequência quando Carla quebra a quarta parede muito interessante. 

Sendo assim, ‘O Menino que Matou Meus Pais‘ reproduz uma das versões do crime que chocou o país, e visto ao lado de ‘A Menina que Matou os Pais‘ gera uma série de questões sobre a própria representação deste crime. Certamente merece análises mais complexas que surgirão com o tempo. Enquanto marketing, a ideia de dois filmes complementares e opostos ao mesmo tempo funcionou muito bem. E mesmo nos momentos mais fracos das duas narrativas, ainda encontra ferramentas suficientes para prender a atenção dos espectadores. É no mínimo interessante como dependendo da versão que você assiste seu ódio é direcionado a Daniel ou Suzane.

Nota: 3,2/5

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Um comentário

  • Atuação impecável da Carla Diaz? Poxa, a atuação dela nesse filme se limita em caricaturas. Caricaturas do sotaque paulistano (muito forçado e mal executado, com excesso de expressões paulistanas vomitadas de forma não natural), e caricaturas das imagens da Suzane que conhecemos através das poucas fotos que circularam durante o julgamento, e das entrevistas que ele concedeu na época. Essas duas coisas são tão presentes e feitas de forma tão estranha, que é difícil enxergar o resto da atuação da Carla Diaz. Os demais personagens também são extremamente caricaturais. O Andreas dá até uma certa dó, pois ele é um adolescente que se comporta como uma criança deslumbrada de 7 anos em todas as cenas. Mas como o personagem dele é secundário, incomoda menos. O roteiro é interessante pois apresenta a versão de cada um dos dois sobre os fatos, mas a atuação da protagonista distraiu muito a avaliação do roteiro e a construção da narrativa.

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