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“Bem-Vindo à Vida Real” – relacionamentos e videogames

Desde que li “Jogador Nº1”, somado à minha antiga paixão por videogames, tenho curiosidade em ler livros do tipo. Então, quando vi “Bem-Vindo à Vida Real”, escrito por Christian McKay Heidicker e distribuído no Brasil pela Intrínseca, em promoção eu não tardei a comprar. E foi uma aquisição da qual eu não me arrependo.

É um livro de leitura rápida, além de ser divertido e contar com vários elementos da cultura pop. Tenta abordar diferentes assuntos, o que passa a impressão de pressa, principalmente na metade final da obra, e isso não agrada. Porém, satisfaz de maneira simples e entretém em bom nível, até por ser voltado para um público juvenil.

Isso porque a escrita é boa e fluida. Heidicker sabe escrever bem, mesmo sendo sua obra de estreia. Tem uma escrita leve e envolvente. Acredito que faltaram alguns desenvolvimentos, além de uma aparente pressa na metade final do livro, mas, apesar de até atrapalhar a experiência de leitura, não torna a obra ruim.

O livro aborda o vício por videogames – algo que já foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde  como um distúrbio de saúde mental. Com essa temática, a obra é protagonizada por adolescentes, com antagonistas adultos, o que poderia tornar o debate mais interessante, mas não ocorre em profundidade.

O único adulto que realmente tem um destaque e grande importância no livro é Fezzik, que é o conselheiro da guilda na qual o protagonista, Jaxon/Miles, integra na clínica de reabilitação para viciados em jogos eletrônicos. Fezzik é o responsável pelos debates adultos mais importantes, realmente agindo como um conselheiro, enquanto o restante fica, em grande parte, sob a responsabilidade dos adolescentes.

E, claro, os diálogos entre adolescentes, que em sua maioria tem problemas de comunicação, por vezes deixam a desejar. Há, até mesmo, antipatias no livro que nem ao menos são bem explicadas, apenas jogadas e o leitor precisa aceitar aquilo que está sendo apresentado. 

Sobre esses supostos problemas de comunicação, o que leva a ter problemas em relacionamentos, há até diálogos bem importantes. Afinal, o vício em videogames levou aquelas pessoas a desenvolverem problemas sociais, ou os problemas sociais levaram aquelas pessoas a desenvolverem o vício em videogame? Este é um debate importante que, no livro, fica em aberto.

O âmbito de relacionamentos, amorosos ou não, dita o livro tanto quanto as questões relacionadas ao vício em jogos eletrônicos. E isso é mesmo interessante. Até mesmo no final da obra – que, em opinião particular, eu não gostei, apesar de tudo. Poderia ter tido mais desenvolvimento, uma apresentação melhor, um desenrolar de algumas relações, que ficaram, simplesmente, jogadas para o segundo plano.

A obra também conta com diferentes clichês. Há situações que você consegue prever os próximos acontecimentos simplesmente por serem comuns demais. Porém, nem considero isso um real obstáculo. Acaba, até mesmo, por tornar o livro bem divertido. Me peguei rindo em diferentes momentos, seja por aleatoriedade de algum personagem, por alguma gincana, pelo relacionamento entre os integrantes da obra, entre outras coisas.

O maior problema do livro, na realidade, nem é o seu final, nem mesmo a escrita corrida na última metade, nem mesmo os clichês, mas o desenvolvimento da personalidade dos personagens. Jaxon/Miles é chato e egoísta. Passa o livro todo sendo chato e egoísta. Melhora? Sim. Porém, o desenvolvimento poderia e deveria ter sido infinitamente melhor, visto que este era justamente o objetivo.

Fezzik e Sopa contam com uma personalidade melhor explicada, mais detalhada. É demonstrado o caminho pelo qual ambos seguiram até chegar ali. Aurora também recebe atenção do autor para ter sua personalidade explicada. Porém, a parte “esquisita” dela é simplesmente jogada ali. Juntou-se um monte de aleatoriedade e pronto.

Admito, porém, que a falta de um desenvolvimento melhor para Meeki, Espantalho e Serena/Gravidade foi o que mais me incomodou. Espantalho, como vilão, é péssimo. Passa a energia de “te odeio e lide com isso”, sem explicações. Até o momento que parecia haver explicação, não houve. Não sei se a ideia era fazer um bully apenas por ser bully, mas não foi convincente.

Serena/Gravidade, então, nem se fala. O suposto interesse romântico de Jaxon/Miles. Achei legal a forma que se conheceram, a conexão criada, mas depois é ladeira abaixo numa velocidade assustadora. A personalidade dela caiu tão rápido quanto o meu gosto em algumas pessoas deste BBB 21. Impressionante.

No entanto, o que fizeram com Meeki me deixa realmente triste. Talvez fosse a personagem com mais potencial, junto à Aurora – que, inclusive, tem uma boa descrição do porquê chegou até ali – e ao protagonista. Uma mulher era gorda, descendente asiática e lésbica constantemente sofrendo violência de uma sociedade preconceituosa. Mas ela é apresentada apenas assim. E sendo, aparentemente, má com o protagonista. Desenvolvimento beirando a zero.

Mesmo apontando tudo isso, “Bem-Vindo à Vida Real” foi uma boa experiência de leitura. É um livro bem divertido e rápido de ler. Acredito que vá acrescentar pouca coisa ao repertório do leitor, mas nem por isso é uma obra que não deva ser lida ou mereça ser deixada de lado. Vale a leitura pela diversão.

Uma observação final: o livro rememorou bons momentos em colônia de férias, algo que eu adorei nas raras vezes que fui quando criança. Momentos de descontração com crianças da minha idade, gincanas separadas por times, competição e diversão. “Bem-Vindo à Vida Real” trouxe esses momentos gostosos à tona. Um sentimento nostálgico muito bem-vindo, inclusive.

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