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3T INDICA | Encontros e Desencontros: a profunda solitude ao redor de dois humanos

Dona de um poderio cult, representado na esmagadora maioria de seus filmes, Sofia Coppola é uma diretora intensa e dramática de um jeito delicioso de se assistir. Seus sucessos mais conhecidos precedem-lhe a fama, fazendo o espectador (eu, no caso) olhar para um simples ser humano e se perguntar como cabe tanto talento num cérebro só?! Tipo, recebeu demais na fila e não sobrou muito pro resto de nós. Encontros e Desencontros (2003) é a prova lendária disso.

Aqui, acompanhamos a história do astro do cinema Bob Harris (Bill Murray, sim, de Caça-Fantasmas) que, hoje em dia, trabalha mais na área do marketing e propaganda. Do outro lado das paredes do hotel japonês onde está hospedado, também acompanhamos a vida da “esposa” (sim, ela é só isso mesmo) Charlotte (Scarlett Johansson, sim, a Viúva-Negra). Do cruzamento de duas vidas tão entediadas, estasiadas, sem ancoradouro e sem rumo, surge uma amizade/amor daquelas de acalentar o coração e restaurar a fé de que existem pessoas incríveis e “ilhadas” no mundo.

O longa de apenas 1 hora e 40 minutos (sim, é “APENAS” sim!) é um romance. Isso é inegável. Porém, é um romance longe do romance. Digamos que parece um filme bobo de adolescente que corre exatamente na direção oposta. Uma história que nos fornece momentos fofos e bem utilizados em comédias românticas. Mas sob a ótica de Sofia Coppola, o filme adquire um tom triste, retraído e cult. E o melhor de tudo: transmite isso em silêncio. Tudo cabe à sua interpretação do que a cena mostra e de como a cena mostra.

O elenco impecável desse filme está, novamente e obviamente, impecável no filme. Scarlett e Bill (o filme é tão profundo e íntimo que já me sinto no direito de chamá-los pelo primeiro nome) são as estrelas mais conhecidas e guiam o filme com esplendor ao demonstrar toda a carga “sem vida” de suas personagens.

Sua química e colaboração lembram uma amizade digna dos livros de John Green: inocente, solitária, diferente, única. Apesar de desempenharem participações curtas, Anna Faris (Todo Mundo em Pânico) e Giovani Ribbisi (Avatar, Sneaky Pete) complementam o elenco principal do filme, interpretando papéis de suma importância para a trama, mostrando-nos características da vida da dupla principal sem precisar falar da dupla principal.

Como o filme se passa no Japão, muito da cultura japonesa é mostrada para o espectador. E eu não conseguiria pensar em um ambiente mais perfeito para o filme. Dois leigos (um um pouco menos que o outro) na cultura japonesa jogados em um país estrangeiro, rodeados de pessoas com as quais não conseguem se comunicar claramente com ninguém. Esse é o principal trunfo que representa o principal ponto do filme: a solidão. Afinal, não é um filme de romance qualquer.

O insulamento, quase uma presença física e palpável aqui, de ambos os personagens foi brilhantemente e sufocantemente representado (como eu disse) simplesmente com imagens. Nem os diálogos exibem tanto isso, mas a forma como são dialogados, sim. A direção aposta (de forma muito certeira) em demonstrar a tristeza através da fotografia (inteiramente triste e azul, com alguns pouquíssimos destaques, como a peruca rosa), da atuação (o jeito dos personagens falarem, suas posturas corporais e seus olhares) e da trilha sonora (e que trilha perfeita, meu Deus! Esse filme é tudo!!!).

Fugindo de aspectos e mecanismos clichês (usando recursos que, ironicamente, tornaram-se clichês hoje em dia), Sofia Coppola foi em busca de exibir as aspectos da inércia humana de forma bem literal. Acompanhamos a vida de duas pessoas sem direção, as quais não chegaram ali (no Japão e nesse ponto de suas vidas) porque quiseram, mas sim porque foram levados até lá. Ou deixaram-se ser levados. A vida à deriva é fácil, mas não é satisfatória. Não ter um lugar para voltar, não pertencer a algo ou alguém é mais solitário do que se imagina. E o melhor é vermos isso sob duas óticas diferentes: uma esposa que acompanha o cônjuge e um astro de cinema “reduzido” (pois ele não construiu a carreira dele pra isso) a um marqueteiro.

Por fim, o filme tem tudo pra ser cult. Desde os aspectos “não falatórios” aos diálogos, todos “incompletos” sem o contexto da vida dos personagens. Não é um filme que agrada a todos pelo seu ritmo lento e por nada de “interessante” ou “grandioso” acontecer, mas vale muito a pena pelo menos dar uma chance a este romance (que não parece romance) fora da caixinha. 

Dono de 95% de aprovação no Rotten e ganhador de um monte de prêmios (nem me dei o trabalho de contar, tem demais) internacionais (incluindo o Oscar de Melhor Roteiro Original), Encontros e Desencontros é um dos melhores filmes que já vi e, até então, o melhor de Sofia Coppola (na minha humilde opinião e na de muitos outros). Aguardo ansioso por um novo filme que me arrebata igual à amizade solitária dos dois personagens me arrebatou. I’m stuck. Does it get easier? No.

P.S.: o filme está disponível na Netflix! Corre pra ver antes que saia.

Nota: 5/5

Trailer legendado (a imagem tá horrível, mas o filme é perfeito):

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