Hoje eu decidi indicar para vocês uma das melhores continuações que eu já vi no cinema, batendo de frente até mesmo com Aliens – O Resgate. Não, isso não é uma blasfêmia. Denis Villeneuve, que agora divide espaço no meu coração junto de Christopher Nolan, presenteou os fãs da obra original de Ridley Scott com mais um capítulo nesse universo tão belo quanto melancólico. Os fãs de ficção científica que ainda não assistiram a essa obra de arte repleta de filosofia e tecnologia, esses sim são os verdadeiros blasfemadores.

Eu me admirei muito quando descobri que conseguiram criar uma continuação para o filme de 1982, o qual teve 750 finais alternativos diferentes. Tá, é um exagero. Foram só uns 7 ou 8 e eu só vi um mesmo. Os outros finais alternativos, para quem tiver interesse, estão disponíveis em vídeos do YouTube de canais de cinema (só faço propaganda com o dinheiro na conta). Então, dito isso, eu já esperava um filme bem… só pra ganhar dinheiro, sabe? Também né, o também diretor de A Chegada ainda não era tão conhecido na época do lançamento dessa obra maravilhosa. E eu me surpreendi MUITO quando decidi ver, ao ponto de já ter visto essa aula de técnica em de cinema umas 5 vezes.
Antes de mais detalhes, vamos à sinopse: após descobrir um segredo enterrado (literalmente e figurativamente, rs) há muito tempo, o qual tem o poder de destruir e reconstruir toda a sociedade, o policial K (Ryan Icônico Gosling) parte em busca de Rick Deckard (Harrison Indiana Jones Ford), o qual está desaparecido desde 2019 (agora você entendeu o “2049” do título né?). Em suas investigações pelo paradeiro do caçador de androides, K se vê em uma trama de segredos esquecidos e questões filosóficas que o fazem questionar tudo o que ele acredita sobre as diferenças entre humanos e sintéticos.

Sim, como toda ficção científica fod* pra caral**, esse filme conta com debates filosóficos, éticos e morais de deixar o espectador noites acordado pensando. Mas não entrarei em detalhes para não estragar sua experiência. Eu prefiro zelar por todos os segredos do filme e pela sua liberdade de ficar espantado com cada migalha do mistério que Denis Villeneuve vai te entregando lentamente.
A direção desse homem é perfeita! Ele gosta de ir mostrando a resolução do segredo e de tudo o que houve no passado bem devagarzinho, pra ir causando uma coceira cerebral no seu juízo que te impede de dormir até você descobrir tudo. Porém, apesar do diretor fazer isso com perfeição (marca de todo filme bom de mistério), o seu ritmo é extremamente lento e longo. Nesse caso em específico, não foi um demérito a meu ver. Eu sou acostumado com filmes enormes, então não senti as horas passando; mas para uma pessoa que não está habituada ao tipo de filme contemplativo, talvez ele seja lento, chato e demorado mesmo. Eu não te culpo, fomos todos educados pela Sessão da Tarde, mas você está perdendo/ignorando uma espécie de filmes de qualidade muito acima da média.

Eu amo tudo o que é de visual nesse filme. Vou deixar o Oscar pelos efeitos visuais falar por si só e me concentrar na fotografia: QUE COISA MAIS LINDA!!!!! Admirem essa bendita pelas fotos que selecionei para a matéria. O teor monocromático misturado com todo o simbolismo e sentimentalismo que cada cor expressa individualmente me deixa sem fôlego toda vez que eu o reassisto. É tudo muito hipnotizante, ao ponto de fazer você pausar o filme para admirar as paisagens com apenas uma cor e os detalhes muito bem trabalhados. Tá aqui um exemplo de harmonia pura entre direção, direção de arte, roteiro e trilha sonora. E por falar na trilha, essa é outra majestade! A reutilização da trilha original me faz chorar diante de tamanha delicadeza. E indo além disso, a nova trilha atua de mãos dadas com a fotografia para compor uma ambientação opressora e imersiva em paisagens gigantes, sufocantes e… tristes! Sim, Blade Runner (os dois filmes) é uma ficção científica triste, e isso fica bem claro pela harmonia entre a trilha sonora e a forma contemplativa de mostrar até mesmo coisas comuns em tela.

Como sempre, atuação, né? Todo mundo no elenco tá muito bem. O Jared Leto (depois daquele Coringa doido, eu tinha perdido a fé nele), a Sylvia Hoeks (que interpreta uma vilã tão incrível que 7 páginas de elogios seriam insuficientes), a Robin Wright e a Ana de Armas (dá pra acreditar que é a mesma atriz de Entre Facas e Segredos??) estão impecáveis. O retorno muito bem pontuado de Harrison Ford no filme me deixou nostálgico, e sua atuação também tá muito legal. Dá pra ver que ele gosta de estar novamente no papel do Deckard (por que choras, Han Solo?).

Porém, quem carrega o filme nas costas com certeza é o Ryan Gosling. Meu Deus, que ator incrível! Ele passa o filme inteiro com aquela expressão meio triste, meio desconfortável, meio enigmático. Eu “comprei” o personagem já nos primeiros minutos dele em tela. E aquela cena dele olhando para um outdoor holográfico perto do fim do filme… Só aquela cena já o faz valer a pena. E tudo por causa das expressões do ator. Muita coisa no filme não precisava ser verbalizada para ser explanada. Denis sabia disso e entregou a difícil tarefa de explicar a visão do personagem diante das situações apenas com olhares ao Ryan. E ele cumpriu ela lindamente.
Por fim, essa obra tão esplendorosamente executada é um clássico moderno da ficção científica. É uma condensação praticamente perfeita de todos os elementos que compõe um filme. Eu estou muito ansioso por uma possível continuação e torcendo sempre com os dedos cruzados para que ela venha com a mesma qualidade técnica e de entretenimento do seu antecessor. Os amantes da arte do cinema irão amar tudo nesse filme; os amantes de embates filosóficos ao redor da robótica, também. E consigo até dizer que essa franquia é uma prima não tão distante de Westworld. Morrer pela causa certa é a coisa mais humana que podemos fazer.
P.S.: antes de verem Blade Runner 2049, vejam Blade Runner: O Caçador de Androides (1982). Os filmes são muito interligados e a experiência é muito melhor quando você assiste ao original antes.
Trailer legendado:
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=okJdrvOdZFI]
