Filmes de terror são a minha paixão. Desde os clássicos antigos, passando pelos clássicos modernos, e indo até os filmes mais ou menos, que são aqueles com todos os clichês possíveis (incluindo os jump scares bobos e a cena clássica de sexo adolescente). Porém, nós, fãs desse já desgastado gênero, sofremos para achar um filme bom de verdade. O cinema do terror vem passando por uma “reformulação”, digamos assim, com filmes ÓTIMOS que fogem do convencional, como Hereditário, Mãe!, Midsommar, Us! e outros, os quais focam mais numa reflexão incômoda do que num susto em um lugar escuro acompanhado de gritaria e barulhos altos. O Homem Invisível é o novo triunfo de Leigh Whannel (que fez parte das franquias Sobrenatural e Jogos Mortais), onde ele conseguiu misturar o terror contemporâneo marcado pela presença de metáforas sociais com o terror convencional.

Primeiro, a sinopse: o filme narra os acontecimentos durante e após a fuga de Cecilia Kass (Elizabeth Moss) de seu próprio casamento, fugindo de seu marido abusivo Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). Após um tempo abrigada na casa de um amigo, Cecilia começa a notar uma estranha presença na residência, como se alguém estivesse observando ela de muito perto. Com o passar dos dias, coisas estranhas começam a acontecer, fazendo com que aqueles ao redor de Cecilia comecem a questionar o estado de sua saúde mental. Certa de que Griffin ainda está atormentando-a, a personagem de Elizabeth, desesperada, procura uma forma de provar que não está louca e que seu marido, o qual se matou após sua fuga, de alguma forma, está tentando destruir sua sanidade.
Falada a sinopse intrigante do filme, o qual é um remake da obra de mesmo nome lançada em 1933 também pela Universal e que também foi inspirada no livro de H. G. Wells (autor de A Guerra dos Mundos, que inspirou o filme de mesmo nome com Tom Cruise) (e haja inspiração), tá na hora de rasgar seda: que filme TENSO! E ele já começa tenso: a cena inicial (não é spoiler, pode ler sem medo) foi uma das melhores coisas que vi nos últimos anos. A fuga silenciosa de Cecilia no meio da noite me deixou com o coração na mão de tão agoniado! O ótimo uso do silêncio me fez suar frio de preocupação, e qualquer barulhinho que eu ouvia no cinema me deixava exasperado (eu só senti algo parecido com Um Lugar Silencioso). Além dessa atmosfera sufocante já no início, Leigh Whannel conseguiu passar todas as informações que você precisa entender sobre a vida da personagem apenas visualmente. Ou seja, o filme não tem aqueles diálogos expositivos que o fazem perder credibilidade com a realidade (sabe quando tem um personagem no filme que fica explicando toda a situação? Isso é muito irritante e irreal). Em vez disso, o telespectador consegue deduzir tudo através do que ele vê no cenário e nas ótimas expressões de Elizabeth Moss.

E por falar na minha queridinha de The Handmaid’s Tale, que TALENTO! O jeito como Elizabeth dá vida às suas personagens chega a ser assustador. O rosto de pânico dela, de sofrimento, de alguém que está perdendo a sanidade me deixou abismado! Mas isso é o de menos, o que surpreende mesmo é a sua habilidade de atuar com um cara vestido de verde da cabeça aos pés. Eu não me lembro a última vez em que vi uma atuação tão boa com CGI (a famosa tela verde)! A atriz dá uma verdadeira aula de atuação ao interpretar alguém que não está vendo nada, mas está aterrorizada e está lutando contra alguém que aparentemente não está ali. Mulher, tu vai longe! E já falando no CGI, que efeitos INCRÍVEIS! A equipe trabalhou tão bem nesse filme para deixá-lo tão crível aos olhos… Em nenhum momento os efeitos especiais e visuais pecam. E isso é MUITO importante para manter o telespectador imerso na história, o que Leigh fez lindamente.

Lembra que eu falei lá no começo que o filme mistura terror convencional (jump scares, que são aqueles sustos com um som alto) e terror contemporâneo (terror psicológico com metáforas sociais)? Então, vou falar um pouquinho de cada. Os sustos presentes no filme são eficazes. Ô se são! Eu paguei cada mico no cinema gritando perto de um casal que sentou ao meu lado. O clichê mais conhecido do terror foi bem feito e muito bem pontuado na trama e o melhor é que a direção não o usou como a estrutura central do filme: Leigh Whannel não quer só te assustar, ele quer te amedrontar; o que me leva a falar do terror psicológico contido aqui. Imagine estar sozinho na sua casa, mas a todo momento, você sente que tem alguém do seu lado, te observando. Enquanto você está se trocando, você tem aquela incômoda sensação de que tem alguém no quarto. Alguém que você não sabe onde está, que pode te machucar e que você não pode ver e nem se defender. É apavorante olhar para uma parede e pensar: tem alguém ali? E eu sai do cinema encarando muuuitas paredes. E poltronas (rs).
No filme original e também no livro, o homem invisível decide usar seu novo poder (adquirido através de um composto químico) para fazer o mal (falando de um jeito bem direto e resumido). Já aqui, vemos que é mais uma questão abuso físico e psicológico em cima de uma vítima de relacionamento abusivo. Como vocês podem ver, os núcleos das histórias diferem bastante. Então as histórias, como já é de se esperar, são muito diferentes. A princípio, isso parece ser um demérito do filme; mas na verdade, isso deu uma cara nova à história, uma identidade própria. Afinal, é assim que são feitos os melhores remakes do cinema: utilizando o esqueleto da história original para criar outra história muito diferente.

Ainda falando sobre as diferenças, o método da invisibilidade também foi alterado. A meu ver, foi uma mudança bastante positiva, já que não tive que engolir o fato de que uma poção deixou alguém invisível. Não vou dar spoiler, mas o novo método ficou tão mais realista e harmônico com a trama que sai meio perturbado do filme, imaginando se não teria alguém me vigiando além de ser pela minha webcam (acabou pra você, Black Mirror).
Por fim, tenho que falar nem que seja um pouquinho sequer da metáfora. Foi uma decisão muito acertada inserir o caso de um marido abusivo que persegue a esposa. É uma temática bem atual, inclusive. E o fato de um morto ainda atormentar a vítima de abuso (mas não de forma tão “literal” na realidade) é um detalhe bem legal que talvez tenha passado despercebido por quem já assistiu ao filme. Indo além, o desespero que uma mulher tão sofrida dentro de um casamento tão infeliz deve sentir quando ninguém acredita em seus gritos de socorro e nos seus relatos de violência doméstica e ainda por cima a acusam de ser louca é, ironicamente, enlouquecedor. Claro que os motivos de ninguém acreditar na personagem são mais fantasiosos do que os que vemos na realidade, mas é nesse ponto em que entra a metáfora. E, claro, a analogia.

Bem, deveria ser só uma indicaçãozinha rápida e breve, mas não sou um homem de poucas palavras. O Homem Invisível é um dos melhores filmes de terror desse ano. Tive o prazer (e a assustadora experiência) de vê-lo nos cinemas ainda antes da pandemia e eu aconselho você, jovem (ou não) leitor, a fazer o mesmo, se ainda for possível. A evolução do terror cinematográfico está trazendo ótimos frutos que não só fazem o espectador ter medo, mas também refletir a respeito de questões sociais importantes. Estou muito ansioso e empolgado com as próximas obras dessa leva contemporânea de “terror social”. Someone sitting in that chair.
Trailer legendado:
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=YJs96ZqAfv4]