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3T INDICA | Jojo Rabbit: a história de uma amizade enjaulada

Eu sou desses que acompanham páginas de notícias sobre filmes e séries no Instagram (como vocês leitores também devem ser, já que estão aqui lendo esse texto). E, do nada, meu feed começou a ser inundado com várias e várias tirinhas contendo trechos de um filme muito colorido que se passava durante o período nazista da Alemanha. Esses pequenos trechos de diálogos me chamaram a atenção e despertaram a minha mais sincera curiosidade: era algo meio poético e meio engraçado! E era uma contradição muito grande algo meio poético e engraçado estar ambientado num lugar e período tão anticlimáticos. O número de indicações ao Oscar 2020 (seis, tendo vencido uma delas) mais uma fotografia tão diferente da que é mostrada na maioria dos filmes de guerra e o fato de o diretor de Thor: Ragnarok (um diretor de comédia metido com um tema tão dramático? Que?!) ter dirigido esse filme convenceram-me a assistir Jojo Rabbit. E que bom que fiz isso.

Esses figurinos são tudo pra mim!

O filme cômico é baseado num livro aparentemente mais dramático (de acordo com minhas pesquisas) que se chama “O céu que nos Oprime”, de Christine Leunens; então, se você é do tipo que sempre pretende ler a obra que inspirou tal filme ou série (bate aqui, irmã), já esteja avisado que essa talvez seja a diferença mais marcante: o filme é uma comédia dramática (a famosa “dramédia”, que eu tanto amo) muito INCRÍVEL!! Nunca pensei que ia conseguir rir de/com nazistas; e ainda de consciência limpa. O roteiro, as piadas e as ações dos personagens ironizam os pensamentos (e até costumes) fascistas da época, mas de uma forma muito respeitosa, que dificilmente ofenderá alguém. E é tão, mas tão difícil conseguir extrair (ou adicionar) humor de algo tão pesado… é preciso destreza, domínio, noção e delicadeza para alcançar tal feito de forma tão leve e divertida. Taika Waititi, eu, um paraibano muito leigo no assunto, sem moral para nada e que não sabe pronunciar seu nome (“táika” ou “teika”?), dou-lhe os parabéns.

Antes de eu tentar fazer você, jovem (ou não) leitor, assistir ao filme, deixe-me falar sobre a sinopse (eu devia começar já falando isso, néra?): no fim da II Guerra Mundial (provavelmente já em 1945), Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis) tem apenas dez anos e seu sonho é servir ao Fuhreh, dando-lhe de presente a cabeça de judeus “monstruosos” (te lembra alguéns?). Assim, como todos os outros jovens de sua cidade, ele ingressa em um acampamento para crianças nazistas, onde podem brincar com facas, arrastar-se por baixo de arame farpado e aprender a jogar granadas (muito que bem). Após um fatídico acidente, Jojo precisa ficar em casa para repousar e fazer fisioterapia (esse momento é meu!), abandonando a colônia de férias obviamente educativa.

No tédio de estar sem fazer nada para fazer em casa, Jojo começa a notar barulhos estranhos vindos do primeiro andar. Juntando toda a coragem que uma criança de dez anos consegue juntar, ele decide investigar. E qual não é sua surpresa ao descobrir uma judia escondida dentro das paredes de sua própria casa; a qual ainda tem a audácia de ameaçá-lo com sua própria faca! Mas é um absurdo sem limites (citação indireta de Hitler, não minha)! Enfim, acalmados os nervos, Jojo relutantemente (mas nem tanto) começa a conversar com sua “refém” e, como vocês podem imaginar, a amizade do tipo que acontece quando pessoas ensinadas a odiar uma característica específica de outras pessoas começam a se relacionar com as pessoas que possuem essa característica (faz sentido sim, lê várias vezes até entender) é mostrada em tela. E é simplesmente linda (e fofa, e delicada, e apaixonante e mais um monte de adjetivos nessa linha; desculpe, mas minha criatividade e meu espaço são limitados)!

O elenco aqui é de encher os olhos com tanto talento (muito bem aproveitado, diga-se de passagem): Scarlett Johansson (a própria Viúva-Negra), Sam Rockwell, Rebel Wilson (AMY GORDA, TE AMO!), Alfie Owen-Allen (Theon Greyjoy, de Game of Thrones), Thomasin McKenzie (eu nunca tinha assistido nada com ela antes, mas ela me surpreendeu positivamente e acredito que voltaremos a vê-la se destacar) e até o Taika Waititi (“teikei”?) interpreta alguém no filme: o próprio Hitler (ou melhor, o Hitler na imaginação de Jojo, que em nada condiz com a realidade, mas falemos disso posteriormente).

E tome beleza, talento, conceito e aclamação!

Porém o destaque mesmo tem que ir para o elenco mirim: Roman Griffin Davis carrega o filme nas costas com uma atuação que não achei ser possível ver em uma criança tão novinha (o menino nasceu em 2007, bicho; como assim ele não tem menos de 10 anos)! Ele consegue exteriorizar em seu rosto e até no seu jeito de falar toda a confusão interna do personagem a partir do momento em que ele começa a ressignificar a visão odiosa que se enraizou em seu cérebro insidiosamente ao longo da vida através das propagandas político-sociais em que o garoto se via rodeado. De fato, é algo difícil de ser representado e ainda de forma tão gradual, o que é mérito tanto do ator como do roteiro de Taika (“taiká”?). Não bastasse ter só o Roman, ainda me colocam Archie Yates para interpretar o melhor amigo de Jojo! A coisa mais linda da Terra é ver os dois interagindo, conversando sobre os sérios dilemas e fantasias de nazistas de dez anos. Por fim, eu preciso nem que seja só citar a química dentre os atores do filme: é impressionante ver Roman interagindo com todo esse elenco de peso de forma tão natural, espontânea, divertida… é tudo tão crível e leve. É impossível não se apaixonar!

O filme, na minha humilde opinião, possui dois méritos que o fazem se destacar: o diálogo entre a fotografia e o ponto de vista do Jojo e os efeitos da doutrinação (seja ela qual for) em crianças. Não vou me ater muito ao primeiro, pois pode ser considerado um spoiler, então falarei apenas isso: a obra começa composta por uma fotografia (cores do cenário, simplificando até demais para o meu gosto) que reflete exatamente a visão de uma criança do mundo. Do meio para o fim, a fotografia assume outra paleta de cores, a qual rima com o estado de espírito e visão de mundo de Jojo após os acontecimentos narrados. É um truque já bem conhecido no cinema, mas, como toda boa técnica, o que importa é o seu aproveitamento; ou seja, o quão bem foi executada.

Já deu pra notar, né, a beleza dessa paleta. A indicação ao Oscar de Melhor Direção de Arte foi o mínimo!

Quanto ao segundo, eu poderia escrever até uma monografia aqui. Mas eu já considero um milagre se você teve a paciência de ler algo tão grande, então serei breve. É meio chocante, né, você começar um filme e ver que o amigo imaginário de uma criança é o Hitler… ou pelo menos uma versão mais colorida e “invencível” do Hitler que o mundo conheceu. Isso não é só mérito da imaginação fértil de uma criança, mas também da melhor propaganda que existe até hoje: o boca a boca.

A apoteose (transformação de um homem em deus) de um homem falho imaginada pelo público desesperado por um herói consegue transformar (e até reprogramar) as mentes mais velhas de uma nação, imagine, então, a mente de uma criança? Isso não é um spoiler: é exatamente isso que o filme aborda já durante suas primeiras cenas, mas de uma forma não tão sutil – a visão deturbada de um homem que incentiva o medo/ódio nos filhos de sua pátria sendo visto como fofinho, engraçado e invulnerável. Vemos também, ao longo do filme, a convicção da supremacia nacional e étnica (comum nesse tipo de governo) que os seus patriotas mais obcecados possuem, ao ponto de sacrificar até seus compatriotas como símbolo de devoção à nação, em desespero para vencer a guerra. Você percebe o quanto esse filme veio num momento oportuno?

Cada print do filme dá pra fazer um papel de parede lindíssimo. Isso se chama talento, queridxs!

Bem, acho que já falei demais. Depois de todos esses pontos altos, eu ainda acrescentaria a trilha sonora maravilhosa e pontual (tem até David Bowie cantando em alemão) e o humor reflexivo travestido de inocente: as crianças que assistirem com vocês (não tem nenhuma safadeza não) vão rir inocentemente, mas vocês, jovens (ou não) adultos conscientes, vão rir com a mão na consciência e até refletir sobre seus próprios preconceitos. Por fim, o aspecto que mais me agrada no cinema, na TV ou na literatura é a capacidade de causar um misto de emoções em quem consome aquele conteúdo. Nesse caso, um misto de alegria, choque, tristeza, introspecção e esperança para as próximas gerações. We have to dance to show God we are grateful to be alive.

Trailer legendado:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=-IBaMJ15Fm0]

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