Home / Tri Indica / 3T INDICA | Little Fires Everywhere: como segredos podem reduzir tudo às cinzas

3T INDICA | Little Fires Everywhere: como segredos podem reduzir tudo às cinzas

Burn, baby burn! Não, Bee Gees não tem nada a ver com essa série, mas eu não poderia deixar a piada passar (não me processem, please). Já fazia um tempo que eu havia visto alguma obra que envolvesse metáforas com fogo (saudades suas, Katniss) e, eu tenho que dizer, fico vidrado em tudo o que a literatura consegue associar de forma metafórica à combustão: consumação, purificação, libertação, renascimento, ascensão. Little Fires Everywhere reinventa e mistura várias dessas metáforas ao mesmo tempo em um incêndio crescente, silencioso, metafórico e literal.

As duas estrelas principais do elenco ensinam ao mundo contemporâneo o que é transmitir sentimentos sem pronunciar palavras. Kerry Washington (mais conhecida como Olivia Pope, em Scandal) demonstra um domínio impressionante da própria personagem: bastou-lhe dois olhos e um sorriso para interpretar Mia Warren esplendidamente! O desconforto, a frustração e as consequências obscuras de um passado secreto conseguem estar sempre à vista do telespectador apenas com um leve puxão do canto da boca e um olhar profundamente carregado. Do outro lado, Reese Whiterspoon (a irritante e também amada Madeline Martha Mackenzie, em Big Little Lies) dá vida à Elena Richardson: uma mulher rica, metida a detetive, adorada pela nata do bairro e que sempre solta aquele comentário desnecessário ao falar de/com uma minoria (aquela sua tia inconveniente que quando tá descrevendo alguém, a primeira coisa que fala após o nome da pessoa é a cor da pele dela, ou a orientação sexual, ou a religião “exótica”) por ingenuidade. Ou melhor, ignorância.

Tenho que dizer que Reese surpreendeu positivamente o autor que vos fala: nunca pensei que a mulher bobinha de Legalmente Loira e aquelas outras comédias românticas pudesse atuar tão esplendorosamente bem como em Big Little Lies e, agora, em LFE. Já Kerry não me foi uma surpresa tãaaao grande. Como eu a acompanho desde Scandal, o brilho de sua performance e os arrepios causados por suas expressões dolorosamente críveis já me eram familiares. Todavia, a atriz eleva seu nome em questão de atuação: não fique com ciúmes, Reese, mas Kerry fez um excelente trabalho, interpretando de forma tão crua e visceral uma personagem muito real, misteriosa e aparentemente assombrada. Os seus olhos cheios de lágrimas ficaram cravados na minha mente por dias!!!! Podem vir, EMMY’s, todas as suas categorias já têm donas!

Bem, antes de rasgar mais seda aqui, vou explicar a premissa (não muito intrigante, na minha opinião) da série/livro (sim, é inspirada no livro da Celeste Ng; então se você possui o TOC de quem prefere ler antes de assistir, já sabe né): tudo começa em setembro de 1997, quando Mia Warren (Kerry Washington) procura um lugar para se estabelecer com a filha, Pearl Warren (Lexi Underwood). Em sua busca, Mia acaba encontrando um conjugado na comunidade inovadora Shaker Heights. “Inovadora” porque a comunidade foi concebida para ser “integrada” (negros e brancos morando perto um do outro). Leve em conta que a série se passa há apenas 23 anos e, até então, um bairro integrado ainda era considerado uma “inovação”. Você quase nunca me surpreende negativamente né, humanidade?!

A casa pertence à Elena Richardson (Reese Whiterspoon), uma jornalista casada com o advogado Bill Richardson (Joshua Jackson, o galã de Fringe). Os dois moram numa mansão nem sei quantas vezes maior do que o meu apartamento, com quatro filhos perfeitos (bem, 75% deles) e a vida (aparentemente) perfeita. Por empatia (pena, diga-se de passagem), Elena decide “englobar” a vida de Mia à sua, oferecendo simpatias e gentilezas “inocentes” (gente que desconhece limites) como baixar o preço do aluguel, oferecer oportunidades de trabalho como fotógrafa, perguntar se ela não gostaria de ser sua empregad… governanta. Entende onde estou querendo chegar? “Não é porque você pode que você deve.”

Não pense que você está lidando com uma série normal. Os roteiristas não querem apenas te mostrar onde a vida dos personagens começa a ficar interessante e onde cada um deles vai parar. A obra em questão está mais interessada em fazer o telespectador refletir sobre suas próprias atitudes e palavras, as quais nem sempre são tão ingênuas como pensamos. Indo além dessa camada superficial e inteligível, o incômodo através do embate entre lados nem totalmente certos e nem totalmente errados se faz o objetivo principal: o pêndulo ético e moral balança durante a trama o tempo inteiro, trocando de lado de forma repentina e brusca. Ou seja, você não sabe para quem torcer, não sabe como reagiria naquela mesma situação e vai adquirir uma dor de cabeça horrorosa ao passar horas refletindo sobre as questões tão magnificamente abordadas naquele roteiro; e, também, os seus conceitos do que é certo, errado, legal e moral.

Como a série não possui cenas tão constrangedoras, eu aconselho você a ver com sua mãe. A forma como diferentes tipos de maternidade é mostrada é um excelente exercício de compreensão para as vítimas de nossos próprios julgamentos. Mais do que uma dualidade: a obra da hulu (e provavelmente o livro também; eu não li, então não posso afirmar) apresenta diversos tipos de mãe que, às vezes, lutam entre si para proteger seus filhos do que elas consideram um malefício, seja o mau caráter, seja a criminalidade, seja uma mãe irresponsável, seja uma estranha para sua cria. Eu assisti à série novamente com minha mãe e afirmo com toda a certeza que as discussões entre os pontos de vista de duas gerações diferentes sobre os erros e os acertos das duas gerações presentes no show expandiram nossa compreensão um para com o outro.

É uma experiência interessante prestar atenção de forma imparcial às justificativas de certas decisões que os pais tomam para proteger os filhos. Por outro lado, a trama mostra também como tais decisões afetam a personalidade dos protegidos, influenciando (para o bem ou para o mal) suas atitudes, seus pensamentos e suas escolhas. Um exemplo com spoilers fora de contexto, então você pode ler sem medo: é compreensível e comum a pressão que nós, filhos, recebemos para moldarmos nossa personalidade e para moldarmos o que exteriorizamos de acordo com as vontades de nossos pais; mas nem sempre nascemos para satisfazer as fantasias de nossos progenitores, o que nos leva à seguinte escolha: cedemos e aguentamos até possivelmente nos estilhaçarmos ou nos rebelamos e vivemos com retaliações nem sempre silenciosas daqueles ao nosso redor.

Pequenos Incêndios por Toda Parte” (o nome do livro traduzido também foi utilizado como título aqui no Brasil pela Prime Video) é uma das melhores séries de 2020. Eu sei que ainda estamos na metade do ano, mas eu digo e repito isso sem medo. O método esplendoroso, sufocante, inquietante (rs) e realista utilizado para construir o roteiro, aliado às atuações esplendorosas não somente dos adultos, como também do elenco mirim vão garantir à equipe muitos prêmios; disso não tenho dúvidas. Dê-se o privilégio de observar como suas escolhas podem deixar rastros de destruição que, um dia, podem queimar você vivo. “The uncanny is in that class of the terrifying wich leads back to something long known to us, once very familiar.”

P.S.: não ouse pular a abertura! Com o andar da trama, você entende os motivos daquele objeto em específico estar pegando fogo. Além disso, a música provinda de instrumentos de cordas é a companheira perfeita para assistir à redução da vida dos outros às cinzas. Bem, isso e uma taça de vinho tinto.

Confira o trailer legendado a seguir:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=JCk1SgGQQ4c]

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *