Em uma não muito bela tarde de tédio, o escritor que vos fala estava navegando pelo catálogo do Prime Video em busca de algo que o retirasse da realidade e o jogasse em um universo distante. Não consegui um universo alternativo (se você está aqui em busca disso, sugiro Stranger Things ou His Dark Materials), mas consegui uma época longínqua, encharcada de laquê, vestidos fabulosos e (in)dependência feminina. Ser mulher nos Estados Unidos dos anos 50 já não era algo que oferecesse boas noites de sono: maquiagem perfeita, cabelo perfeito, silhueta perfeita e vestidos perfeitos exigiam tempo e energia, tudo em nome da aparência impecável. The Marvelous Mrs. Maisel mostra tudo isso, um pouco mais e um humor certeiro localizado em uma ambientação absurdamente realista e bela.
A maior surpresa que tive com a série, de apenas três temporadas até então, não foi a atuação impressionante e o timing cômico incrível de Rachel Brosnahan, também não foi o gasto dispendioso que a Amazon liberou para criar os figurinos, adquirir carros muito antigos e formar aquela ambientação tão imersiva que você é até capaz de esquecer em que ano vive de verdade e nem foi o talento do elenco para falar mais frases em 2 segundos do que eu falo em 5 minutos. Não, meus amigos, a minha maior surpresa foi ver nos créditos do primeiro episódio a seguinte frase: “created by Amy Sherman-Palladino”.

Ver a “mãe” de Gilmore Girls nos dar uma nova obra de arte foi algo que me deixou em puro êxtase! O talento desta mulher para criar personagens carismáticas, fortes e com toques (não tão) sutis de feminismo é indescritível. E, de algum jeito muito misterioso para nós, reles mortais, Amy consegue recriar sua fórmula em um contexto totalmente diferente; mas, felizmente, mantendo suas piadas rápidas e inteligentes e seus diálogos que eu imagino serem dificílimos de serem gravados (segundo boatos que ouvi aqui e ali, as atrizes de Gilmore Girls comeram o pão que o Diabo amassou para aprenderem a falar tão rápido!).
Como fã inveterado de GG, eu talvez, só talvez, seja um crítico suspeito para falar de uma série irmã da anterior; então eu deixo todos os prêmios que The Marvelous Mrs. Maisel já arrecadou em apenas duas temporadas (19, incluindo EMMY´s e Globos de Ouro) e todas as indicações ao EMMY (20, com a segunda temporada; para você ter noção, a série só fica atrás de Game of Thrones na quantidade de troféus e indicações) falarem por si só. A mulher sabe fazer dinheiro com qualidade!!

Mas já vendi demais a série e nem falamos do principal: sobre o que se trata? A série nos mostra a Nova York dos anos 50, cheia de mulheres de porcelana e homens de terno caríssimos sempre acompanhados de um copo de whisky. Dentre elas, acompanhamos a Miriam “Midge” Maisel (Rachel Brosnahan), uma dona de casa que cuida dos dois filhos (três, se contar com o marido), mantém uma casa impecável, mantém-se perfeita (conseguindo estar sempre maquiada e penteada quando na vista do marido (não me pergunte como!!). E ainda ajuda o trast… esposo no hobby (“passatempo”, para nós habitantes de terras tupiniquins) de ser comediante de stand-up (sabe aquele negócio de pegar um microfone, falar e fazer uma plateia rir?); mas ele não é muito (rs) bom nisso. Um belo dia, enquanto essa escrava trabalhava para cuidar de tudo ao redor da vida dela e da dele, ele decide acabar com o próprio casamento revelando a ela que está tendo um caso e que não aguenta mais a vida de mimad… casado.
Bêbada, desesperada com o próprio futuro, vendo seu único objetivo na vida escorrendo entre seus dedos e em busca de uma caçarola em um clube vestida apenas de camisola, chinelos e sobretudo, Miriam decide reclamar de todas as suas desventuras em um microfone, “lavando a roupa suja” na frente do público. Susie Myerson (Alex Borstein), ao ver a plateia gargalhar a plenos pulmões, vê ali uma oportunidade difícil, mas não impossível de administrar a carreira de uma mulher ousada em uma área repleta de homens. Uma amizade extremamente carismática surge e você, meu caro leitor, perde a vida social e ignora todos os seus compromissos para torcer por elas em frente à TV durante aproximadamente 1 hora por episódio.

Como eu já ressaltei, a série carrega consigo os clássicos diálogos rápidos que são a marca de Amy Sherman-Palladino, então eu recomendo que você assista à série legendada, já que a dublagem não fez jus ao talento e dicção dos atores; mas deixo aqui avisado que foram várias as vezes em que tive de retornar 10 segundos ou mesmo pausar o episódio para acompanhar uma fala. Porém não basta somente ler rapidamente: a série vai treinar a velocidade do seu raciocínio para entender muitas piadas sutis, que passam num piscar de olhos; e enquanto você estiver rindo da primeira, Miriam já estará na quinta! Então não veja com sono.
A série é uma verdadeira de aula de comédia. Como um todo, o humor funciona muito bem; mas os shows de stand-up de Midge são o ponto alto da série. Não seria um exagero falar que ouviram minhas risadas do outro lado do corredor no meu prédio. E também, não é para menos: Miriam consegue criar humor e piadas espontâneas a partir do nada, fazendo os telespectadores rirem pelo oportunismo do momento (como quando você está numa roda de amigos, acontece alguma coisa e um dos seus amigos lembra de um meme que encaixa perfeitamente na situação). Acredite, nunca achei que piadas improvisadas sobre gravidez, divórcio, adultério, judaísmo e opressão masculina pudessem ser tão hilárias.

Apesar dos temas constantemente e criativamente abordados na série serem delicados (para dizer o mínimo!), Amy consegue escrever um roteiro respeitoso, que não causa polêmicas e ofensas para religiosos ou mesmo para quem passe pelas mesmas tribulações dos personagens (rir da própria desgraça é terapêutico), assim como em Gilmore Girls. E, mesmo com a comédia fazendo parte de cada minuto de gravação, a obra de arte (aceitem!) do Prime Video ainda consegue lidar com dramas familiares e românticos de forma singela, fazendo este escritor aqui se emocionar em algumas partes e sentir a tristeza mostrada em tela, que me pegou justamente pelo carisma dos personagens. E, de novo, Amy tem talento para criar carisma instantâneo.
Bem, eu já falei demais. A Amazon não tá me pagando para dizer isso, mas façam esse favor a vocês mesmos: deem uma chance para uma série de época engraçada, dramática e viciante. Os dramas exagerados e o talento da senhora Maisel conquistarão até mesmo o paladar mais refinado e criterioso para a comédia. Espero que gostem tanto como eu gostei e que (não) passem pela mesma raiva de não ter com quem comentar os acontecimentos da série. Tits up!
Confira o trailer legendado da primeira temporada a seguir:
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=_EtjzOuAFAE]
