Como sociedade, aprendemos um meio de imputar o mal em algo palpável. Em um lugar, um objeto… Em um personagem. Durante os anos, esse meio foi usado para restringir pessoas, incitar medo, julgar pessoas por atos diferentes ou fora de um dogma ou organização social.
Provavelmente o inimigo mais conhecido de toda a humanidade foi um anjo que, ao se rebelar, caiu no abismo mais profundo. Condenado a cair, ele trama e abomina seu Pai e sua criação…
O nome do inimigo é Lúcifer, Estrela da Manhã.
Mas como adoçar o Diabo e transformá-lo em algo de interesse?
Em 1989, na revista Sandman #44, Neil Gaiman nos introduziu uma nova versão do Diabo; um humanoide de cabelos cacheados volumosos, em um tom alaranjado. Nos deu também um rosto, um muito conhecido. O Lúcifer de Neil Gaiman tinha o rosto de David Bowie, o camaleão da música.

O Inferno não era tão diferente do consciente coletivo. Lotado, vasto e abarrotado de torturados e torturadores. No centro disso tudo, Lúcifer habitava e comandava no que agora era um triunvirato; Belzebu e Azazel comandavam em igualdade.
Ao longo dos quadrinhos de Sandman temos muitos encontros com Samael, mas nenhum deles é tão importante para as histórias (tanto de Sandman quanto de Lúcifer), quanto a última.
Como disse antes, o Lúcifer de Neil Gaiman era uma nova versão. Nessa nova versão, Lúcifer se sente cansado; cansado de ser culpado pelo erro dos humanos, cansado de governar o inferno e principalmente, de continuar nos planos de Deus.

Ao encontrar Morpheus*, Lúcifer expressa seu descontentamento e, em um ato de liberdade, expulsa todos que habitavam o Inferno e pede que ele arranque suas asas e fique com a chave dos portões do Inferno. O Diabo estava livre de seu fardo e de suas asas.
Em junho de 2000 o escritor Mike Carey, com a benção de Neil Gaiman, começa uma série em quadrinhos com foco total em Lúcifer Morningstar e sua história pós abdicação do inferno.
Logo na primeira história vemos Lúcifer comandando uma boate em Los Angeles nomeada de Lux, ao lado de sua companheira Mazikeen, uma filha de Lilith. Nessa boate Lúcifer vive seus dias como pianista e cicerone, longe dos assuntos do Céu ou do Inferno… Por um tempo.
Durante as 75 edições lançadas com o roteiro de Mike Carey, Lúcifer tenta encontrar seu próprio lugar fora dos desígnios de Deus. Estrela da Manhã faz o que sabe melhor para conseguir o que almeja e não se importa com todos que passam por seu caminho… Sacrifícios são necessários para obter o que ele deseja. Ele não é bom; e é imperativo que isso seja compreendido. Ele é o Diabo com noções de humanidade.
“Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
‘Cause I’m in need of some restraintSo if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
Use all your well-learned politesse
Or I’ll lay your soul to waste”(Rolling Stones – Sympathy for the Devil)
Após a fase Mike Carey, outros escritores tentaram continuar a história de Lúcifer. Holly Black nos entregou um personagem raso, focado somente em aparências e com uma história fraca;
Em 2019, no aniversário de 30 anos de Sandman (e de Lúcifer), a Vertigo entregou ao escritor Dan Watters a tarefa de escrever novas histórias e ele tem feito um ótimo trabalho.
Lúcifer foi lançado aqui no Brasil em pedaços. Entre 2001 e 2003 a editora Brainstore lançou as 10 primeiras edições das 75 que compõem o arco de Mike Carey. Após isso, a editora Panini lançou um encadernado com as as 5 primeiras edições. Infelizmente nenhuma outra editora produziu o resto das 75…
As histórias escritas por Holly Black saíram por aqui em 3 edições lançadas pela Panini e a primeira edição de Dan Watters saiu em setembro, também pela editora. Para quem demonstrar interesse, é um bom ponto de partida!





