A Marvel realmente está caminhando para filmes girl power? Ou isso é só mais uma maquiagem?

Este texto pode conter spoilers de Vingadores: Ultimato

Vingadores: Ultimato foi responsável por reunir todos os núcleos de filmes de heróis do universo da Marvel nos cinemas. Dentre gigantes nomes, estavam grandes heroínas da empresa. O que gerou uma grande comoção, como gerou também em Guerra Infinita, foi a cena da batalha final “ela não está sozinha“.

Filme: Vingadores – Ultimato (2019)

Podemos enaltecer tal cena que evidencia o girl power, emponderamento das heroínas e a felicidade de finalmente assistir uma cena como esta protagonizadas por mulheres. E então chegamos a palavra que gerou um questionamento. Protagonizadas. Protagonistas. Infelizmente isso não se adéqua as personagens propostas no filme.

Seria ingênuo considerar a hipótese de que elas realmente protagonizaram ou têm algum papel tão forte quanto a dos protagonistas masculinos. Apesar do filme de Capitã Marvel, que foi o primeiro filme solo de uma heroína dentro de um universo consolidado de 11 anos, ela com todo seu potencial ainda foi coadjuvante em um filme onde deveria ter mostrado toda sua majestosidade que foi alimentada em seu (maravilhoso) filme solo. Deixada de lado com uma desculpa, que colou com a maioria dos fãs, ela serviu apenas para um show visual no fim do filme, e algumas frases de efeito.

Aliás, é válido mencionar que por mais que a Marvel tenha se aproveitado da onda de emponderamento feminino para fazer o filme solo da Capitã Marvel, ele é extremamente importante não só dentro da cronologia MCU, mas é importante também pois tem um peso gigantesco dentro da representatividade feminina. Infelizmente ficou em evidência o desespero da Marvel por uma protagonista feminina (mesmo com a Viúva Negra em seu universo por mais de 10 anos, e sem um desenvolvimento decente) e isso deixou em destaque o quanto ela quis se aproveitar do momento e do buzz que iria gerar. Isso é perceptível, quando ela apenas tratou com decência essa personagem e deixou de lado as outras.

Já a Viúva Negra foi uma heroína bastante conturbada no decorrer da construção do universo MCU. Podemos lembrar como ela era hiper sexualizada em suas primeiras aparições. E mesmo que ainda tenhamos visto alguma evolução da personagem, ela ainda foi utilizada como terceiras opções e servia as vezes como flerte de algum herói ou até mesmo um apoio para o desenvolvimento de outro herói, quando ela continuou por 11 anos sendo deixada de lado. É inegável que a heroína, mesmo não tendo seu potencial explorado como deveria, foi bem interpretada pela Scarlett Johansson, que deu vida a inúmeras cenas de lutas que amamos assistir. Mas isso não apaga como a maquiagem de girl power tentava tampar o efeito sexualizado que ela causava, muito menos o descaso com a história de uma personagem tão complexa.

E é nesse ponto que eu queria chegar. A Marvel estaria usando apenas uma maquiagem de emponderamento feminino nos cinemas para poder gerar buzz e chamar atenção de uma parte específica do público? Com algumas frases de efeitos que geram suspiros dos fãs, ou com cenas com menos de 1 minuto de tela reunindo as heroínas e promovendo a sororidade.

Em modo comparativo, as heroínas que passaram pelo universo MCU não tiveram 1/10 do que os heróis tiveram. Eles obtiveram um desenvolvimento melhor e maior, foram explorados o suficiente para se tornarem importantes e terem uma significância maior (como a primeira trindade Homem de Ferro, Thor e Capitão América – ou até mesmo o Doutor Estranho) e um impacto gigantesco dentro do universo.

Filme: Vingadores – Guerra Infinita (2018)

O que parece é que o público começou a se contentar com as migalhas fornecidas pela empresa. A mulher inteligentíssima a frente do seu tempo, foi o par e a versão feminina de um herói (irrelevante ainda por cima). Uma ex-espiã russa resumida a roupas coladas e closes constrangedores que teve um final trágico e nada digno de sua trajetória. Será que cenas como “ela não está sozinha” compensa todo o descaso que a Marvel tem com suas personagens femininas (as citadas e não citadas neste texto)? Em meio a inúmeras cenas de batalhas, ou cenas impactantes envolvendo heróis masculinos, em 11 anos as heroínas protagonizaram somente 3 com pouquíssimos minutos de tela.

Com exceção de Capitã Marvel, que pelo menos em seu filme solo, teve uma representação significativa, mas quando divide tela com heróis homens é reduzida, todas as mulheres que passaram pelo universo da Marvel não foram aproveitadas como mereciam. O que a Marvel faz para não deixar isso em evidência? Fornece uma ou duas cenas, que às vezes acabam nem importando tanto assim dentro da história e servem apenas pra fazer o público vibrar. O famoso fanservice.

Além disso tudo, é evidente que as mulheres foram taxadas neste universo, e mesmo que isso seja culpa do público que as enxerguem em caixinhas pré-definidas, a Marvel também tem uma parcela de culpa por não saber construir personagens complexas. Se é confiante, é arrogante. Se é séria, é porque é sofrida ou amargurada. Quando isso claramente não acontece com os personagens masculinos, que têm a livre opção de serem arrogantes se quiserem (com a aprovação do público), e ainda por cima têm a oportunidade de explorarem outros lados e sentimentos que as personagens femininas não conseguem. Além disso, não são questionados quanto a sua capacidade. Um homem construir uma armadura e uma manopla do infinito, é aceitável, uma mulher com o poder de destruir uma nave somente com seu corpo e não sentir o impacto físico de um Titã, é forçado. Outro exemplo é no quesito inteligência, a de um homem nunca foi contestada dentro desse universo, ao contrário do que aconteceu com a Princesa Shuri.

Aliás, o que seria algo forçado? Uma heroína fazer algo impossível dentro de um universo onde coisas impossíveis acontecem é forçado? Mas um herói que age da mesma forma, não é? A vontade que existe em mudar como os filmes são feitos é justamente para esse pensamento mudar. O pensamento de que a mulher não é capaz.

Filme: Pantera Negra (2018)

O filme que mais se caminha para um universo igualitário é Pantera Negra, que soube explorar e distribuir papéis femininos fortes e significativos, por mais que tenham sido coadjuvantes, as mulheres dentro deste filme foram melhores representadas e desenvolvidas dentro de seu papel na história. Souberam explorar lados que ainda não tinham sido (de maneira eficaz) explorados até então no universo MCU. O longa é um exemplo de que é possível sair da fórmula antiquada, e que há meios (diferentes e melhores) de evidenciar o poder feminino em filmes de heróis. Por mais que não tenha sido o ideal, foi o diferencial entre tantos outros filmes dentro de 11 anos de história da Marvel nos cinemas.

Com uma nova fase de heróis da Marvel chegando, gera a dúvida. Seria a Marvel capaz de dar a devida atenção as suas grandes heroínas ao em vez de torna-las coadjuvantes (novamente) dentro de suas próprias histórias? Com a criação do filme solo da Capitã Marvel, e a produção do filme solo da Viúva Negra, além disso a existência de tantas heroínas fantásticas dentro desse universo com potencial que ainda não foi explorado, eu ainda mantenho a fagulha de esperança acesa esperando um novo cenário dentro dos filmes de heróis da Marvel.

 

 

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