Conhecido por abordar de forma sensível e íntima as vulnerabilidades e tudo aquilo que nos faz lembrar da nossa brasilidade, Allan Deberton retorna aos cinemas no dia 5 de novembro com Feito Pipa, longa nacional escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar 2027.
Feito Pipa acompanha Gugu, um menino queer de 11 anos que vive com a avó, Dilma, nas proximidades de uma barragem. Enquanto ela enfrenta o avanço do Alzheimer, Gugu tenta esconder a gravidade da situação por medo de ser enviado para morar com o pai homofóbico.
O cineasta cearense construiu uma carreira com histórias de personagens que, de algum modo, vivem à margem das expectativas familiares ou da sociedade, seja com a icônica idosa bailarina incompreendida de Pacarrete, seja com os amigos Lucas e Felipe de Melhor Amigo. A verdade é que Allan Deberton não se cansa de provar como consegue nos presentear com personagens ricos em complexidade, subjetividade, brasilidade e verdade. O grande brilho de suas histórias certamente está na construção dos protagonistas. E, bem, isso não poderia ser diferente em Feito Pipa.

Uma relação construída nos pequenos momentos
O filme é inteiramente envolto pela relação entre avó e neto e, principalmente, pela forma como relações de amor e afeto são justamente aquelas que nos permitem ser quem somos de verdade. A conexão entre Gugu (Yuri Gomes) e Dilma (Teca Pereira) é a alma do filme.
Como a duração do longa é relativamente curta, com apenas 1h30, André Araújo (roteirista) e Allan Deberton repetem a parceria de longa data e mostram mais uma vez como essa sintonia funciona muito bem. Juntos, eles têm a difícil missão de fazer o público se cativar e se apegar à dupla nada convencional. E conseguem.
A abertura do filme, assim como pelo menos os primeiros 20 minutos, é dedicada a apresentar a dinâmica entre Gugu e Vó Dilma. Aos poucos, entendemos como funciona essa relação rodeada pelo fantasma da mãe de Gugu, mas que, ao mesmo tempo, permite que os dois convivam em plena liberdade para serem quem são.
Compartilhando confidências, sonhos e o simples cotidiano, é impossível não se apaixonar e não se apegar aos dois. Isso se torna fundamental para a inserção do drama na história, principalmente quando Dilma começa, pouco a pouco, a se esquecer de Gugu.

Quando o afeto também vira dor
A dor é real e tão palpável que as lágrimas são inevitáveis. O espectador se sente parte daquele pequeno núcleo familiar e, logo quando esse acalento e aconchego são arrancados de nós, a trama parte para um rumo muito mais difícil de acompanhar sem se envolver emocionalmente.
Ao mesmo tempo, Feito Pipa nunca perde o bom humor, leve e fácil de se relacionar. Yuri Gomes e Teca Pereira são encantadores! O timing do humor é muito bem acertado, sem se tornar algo fora de tom ou incompatível com a montanha-russa de emoções proposta pelo filme.
No fim, Feito Pipa é daqueles filmes sensíveis, emocionantes e definitivamente inesquecíveis. Sua grandiosidade está justamente na maneira como o cotidiano e as relações familiares são abordados. Aqui, pequenos momentos se tornam grandes porque a finitude da vida está sempre à espreita.
Nota: 5/5









