CRÍTICA | “Contos Paralelos”: Asghar Farhadi transforma o espectador em voyeur

Do vencedor de dois Oscars de Melhor Filme Internacional, Contos Paralelos é um daqueles tesouros simples, mas potentes, que encontramos em festivais de cinema. O cineasta iraniano Asghar Farhadi nos faz questionar: a vida imita a arte ou a arte imita a vida?

No filme, Sylvie (Isabelle Huppert), uma escritora francesa em crise criativa, passa a observar secretamente os vizinhos em busca de inspiração para seu novo romance. Porém, ao interferir cada vez mais na vida deles, ela começa a perceber que os limites entre realidade e ficção podem ser mais perigosos do que imaginava.

A princípio, a narrativa pode parecer confusa, já que demora um pouco para revelar que uma das histórias que vemos em tela é fictícia. Ao mesmo tempo, essa escolha funciona muito bem. A descoberta de que aquelas pessoas não são exatamente as mesmas que conhecemos na vida real se torna o primeiro estopim para o grande ápice dramático que vem a seguir.

O cineasta Asghar Farhadi inicia o filme propondo um exercício criativo que será explorado ao longo da trama, fazendo com que o espectador imagine e presuma quem são aquelas pessoas e por que seus caminhos se cruzaram. Desde o início, fica claro que uma das principais ferramentas do diretor é justamente a manipulação do nosso olhar, conduzindo nossas percepções enquanto revela, aos poucos, o que é realidade e o que é ficção.

Virginie Efira interpreta duas mulheres instigantes sob a mesma pele, mas em contextos completamente diferentes. A atriz transita entre o real e o imaginário enquanto nos questiona sobre os limites da arte. Afinal, é moral usar parcelas da vida de outra pessoa para saciar uma crise criativa? E preencher as lacunas com uma imaginação que pode afetar a vida de quem lê essa história?

O filme não responde diretamente a nenhuma dessas perguntas. Em vez disso, faz algo ainda mais interessante: apresenta ao espectador todas as incongruências e contradições que surgem em você ao acompanhar essa história.

Quando realidade e ficção se confundem

Um dos aspectos mais interessantes das performances do elenco é justamente essa dualidade. Ela está presente até mesmo em Sylvie e em seu ajudante, Adam (Adam Bessa), que também são afetados pela ficção, assim como os personagens vividos por Pierre Niney e Vincent Cassel.

A história também provoca ao apresentar, por vezes, um olhar machista na construção dos personagens fictícios escritos por Sylvie. No entanto, a realidade se mostra ainda mais cruel do que sua mente poderia criar.

Contos Paralelos traz referências ao cinema francês e prioriza o cotidiano e as trocas humanas. Além disso, o filme se poupa de grandes plot twists e nos transforma em um terceiro voyeur daquela trama.

Nesse sentido, a obra funciona quase como um exercício antropológico sobre esses dois núcleos. Não há uma preocupação em apontar quem está certo ou errado. Em vez disso, somos convidados a entrar naquelas vidas com a mesma invasividade apresentada pela própria história.

Um filme para quem tem paciência

Definitivamente, Contos Paralelos não deve conquistar o grande público. O longa é extenso, por vezes cansativo, e pode fazer com que o espectador se pergunte para onde aquela história está caminhando. Farhadi tem muito a dizer, mas talvez pudesse dizer isso de forma mais curta e direta. Em alguns momentos, o filme se estende além do necessário e corre o risco de perder o espectador justamente quando suas provocações começam a ganhar força.

Por outro lado, se você tiver paciência e estiver disposto a mergulhar na proposta, o resultado é um mar de reflexões que pode continuar acompanhando você mesmo depois de sair da sala de cinema.

Contos Paralelos ainda não tem data de estreia definida para o circuito comercial brasileiro.

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