CRÍTICA | “Virtuosas”: Cíntia Domit Bittar transforma o conservadorismo em terror

Em uma era em que o charlatanismo dos coachs e “formadores de opinião” está em alta, Virtuosas chega aos cinemas de maneira provocativa. Com a intenção de mostrar que o terror habita em nossa sociedade, e não apenas no cinema, o novo filme de Cíntia Domit Bittar une crítica social a um humor afiado e transforma tudo em um terror crescente, capaz de provocar uma reflexão incômoda: até onde você iria para atingir um ideal de perfeição?

Virtuosas transforma o absurdo em terror

No filme, acompanhamos cinco mulheres que vão a um retiro VIP que promete ajudá-las a alcançar sua melhor versão. Tudo acontece sob as regras de uma fé que não admite falhas. No entanto, a jornada virtuosa logo se revela absurda e perigosa.

Protagonizado brilhantemente por Bruna Linzmeyer, Virtuosas é daqueles filmes que reúnem discursos reconhecíveis da realidade em uma construção narrativa de absurdo crescente.

De discursos antivacina à submissão feminina, o roteiro de Cíntia Domit Bittar, em colaboração com Fernanda de Capua, faz a gente rir do absurdo e temê-lo ao mesmo tempo. O conservadorismo, em sua forma mais extrema, aparece desde os minutos iniciais do filme, por meio de uma convenção de mulheres recatadas e do lar, todas em busca de aprovação e perfeição.

A situação evolui até o ponto em que elas literalmente matam para justificar seus erros — que são sempre atribuídos ao outro, nunca a elas mesmas. É uma tentativa de justificar algo que, caso reconhecessem como pertencente a si próprias, entraria em conflito com os ideais que defendem e com tudo aquilo que acreditam ser.

O som transforma o silêncio em ameaça

O trabalho de som de Virtuosas é quase como uma sexta protagonista. Ele dita a sensação de cada momento e ajuda a construir uma atmosfera dramática, intensa e pontual.

Aqui, o filme trabalha muito bem o silêncio e o desconforto. A sensação de insegurança e vigilância é latente, assim como aquele sentimento constante de que algo muito ruim está prestes a acontecer.

É justamente nesse espaço entre o que vemos e o que imaginamos que o terror do filme ganha força.

Um elenco feminino completamente entrosado

Virtuosas tem um elenco fenomenal e completamente entrosado. As atrizes desaparecem para dar lugar às suas personagens. Para mim, foi até um choque conhecê-las pessoalmente, tamanha a transformação que elas assumiram ao se entregarem de corpo e alma ao filme.

E talvez esse seja o maior acerto e mérito do longa-metragem: seu elenco feminino.

As personagens são diferentes entre si, mas todas ajudam a construir o retrato de uma sociedade em que a busca pela aprovação pode ultrapassar limites cada vez mais perigosos.

Cíntia Domit Bittar transforma o retiro em um experimento

A direção é igualmente espetacular. Cíntia Domit Bittar sabe muito bem trabalhar espaços e sombras. Há quase um voyeurismo na forma como o filme nos coloca diante daquelas mulheres.

É como se estivéssemos observando e analisando tudo de fora, como espectadores de uma espécie de experimento ou reality show de absurdos. Essa escolha aumenta a sensação de vigilância e faz com que o público também se torne um observador daquele universo, ao mesmo tempo em que serve como um espelho, nos forçando a enxergar a doença da nossa sociedade.

Virtuosas chega aos cinemas no momento certo

Para além de toda a técnica, que beira o fantástico, Virtuosas chega em um timing muito bem acertado.

Às vésperas das eleições políticas, o filme alerta o público para discursos que utilizam a religião como ferramenta de manipulação. A produção também aborda como a fragilidade e a vulnerabilidade podem ser utilizadas para moldar uma imagem e, consequentemente, realizar a manutenção do poder.

É um retrato de um tipo de pessoa que pensa apenas no próprio bem-estar, deixando o coletivo em segundo plano.

Vale a pena assistir a Virtuosas?

Virtuosas é um filme que me conquistou no Festival do Rio de 2025 e que se reafirmou ainda mais nesta estreia no circuito comercial.

É um filme imperdível, tanto pela história quanto pela qualidade cinematográfica. Cíntia Domit Bittar constrói um terror que incomoda justamente por parecer próximo demais da realidade, enquanto seu elenco feminino entrega performances que tornam essa experiência ainda mais potente.

Vale a pena assistir? Com certeza. Principalmente para quem gosta de filmes de terror que vão além do susto e utilizam o gênero para provocar reflexões sobre a sociedade, a religião, o conservadorismo e a busca pela perfeição.

Virtuosas estreia nesta quinta-feira, 24 de setembro nos cinemas brasileiros.

Nota: 4/5

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