Homecoming: Documentário intimista traz a importância da representatividade negra e dilemas da vida pessoal de Beyoncé

Acumulando mais de 20 anos de carreira, Beyoncé Knowles-Carter é considerada uma das maiores artistas globais da atualidade. A cantora de 37 anos, já se destacou em diversas áreas da arte, tanto como protagonista, como nos bastidores. Homecoming é o terceiro documentário da cantora, o primeiro para Netflix. Beyoncé foi responsável pelo roteiro, direção e além disso foi a produtora executiva do documentário.

Homecoming tem como base dois shows que a cantora fez no festival Coachella em 2018. Um formato já conhecido pelos fãs da cantora, devido ao seu documentário anterior Live at Roseland: Elements of 4, onde ao mesmo tempo em que se passa um show (completo) há comentários e vídeos caseiros da cantora, montando uma história que completa com o show em questão.

Bem como os documentários anteriores, neste podemos ver mais da vida pessoal de Beyoncé. Entender o que a cantora passou no último ano logo após o anúncio de sua gravidez e por consequência o cancelamento do seu show no Coachella em 2017. Mas o que chama atenção neste documentário é a importância das questões levantadas e debatidas no decorrer dele.

De antemão é levantado a importância da representatividade negra. Beyoncé é uma ativista negra e usa toda a sua influência e voz para ajudar a mudar a visão que muitas pessoas ainda tem em relação a comunidade negra, além de dar oportunidade que normalmente eles não teriam. Sua banda e seu ballet que participaram do festival são compostos por homens e mulheres negras, sua banda oficial é composta por somente mulheres, seu ballet em sua maioria é mulher. Beyoncé não esconde o seu ativismo, nem mesmo age com meias palavras. A cantora se posiciona tanto como nas letras de sua música, como em suas atitudes, como por exemplo dar oportunidade de emprego e visibilidade.

A cantora deixa claro em seu documentário que fez questão de contratar somente negros para o festival. Isso levanta uma questão comum, para quem não está a par do ativismo. Ela está tirando a oportunidade dos brancos? Eu lhe respondo. Não.

O papel que Beyoncé está exercendo em dar essa oportunidade somente para negros é mudar a visão que a massa tem sobre eles. Desde que o mundo é mundo os brancos foram considerados o padrão de beleza, o padrão de comportamento, o padrão de vida invejado e imitado por todos. Os traços negros sempre foram ridicularizados, inferiorizados, e infelizmente taxados como fora dos padrões aceitáveis. A partir do momento em que há a possibilidade do diálogo, principalmente, uma voz que é capaz de ser ouvida e entendida mundialmente, é dever daquele tomar partido ou dar voz para aquele que necessita e detém do lugar de fala. Beyoncé, como uma mulher negra, possui esse lugar de fala, e faz o que tem ao seu alcance para ajudar no processo de mudança desse padrão que foi imposto por séculos.

Quando vemos um negro dançarino, cantor, músico, produtor, diretor, alguém bem sucedido, a imagem da marginalização da cor começa a se desvencilhar. O caminho é longo, tendo em vista que isso é uma herança de séculos de lavagem cerebral e ódio contra os negros. Você, hoje em dia, pode até achar essa minha fala exagerada, mas historicamente esta minha fala não chega aos pés do que realmente foi imposto contra os negros.

Além de se posicionar fortemente com a comunidade negra, Beyoncé enaltece o poder feminino a todo tempo. Seu show é voltado, diversas vezes, para uma conversa com as mulheres. A cantora faz questão de enfatizar em determinado momento, além da importância do posicionamento feminino, o perigo que as mulheres negras sofrem diariamente nos Estados Unidos. Mulheres negras acabam se tornando estatísticas gigantescas de assassinatos, abusos, dentre outros crimes que deixam a mulher extremamente vulnerável perante a sociedade.

Uma outra faceta da cantora é mostrada em Homecoming. Uma mulher completamente diferente da que vemos nos palcos, uma mãe, uma esposa, e alguém que sofreu tanto dores físicas como emocionais. Beyoncé compartilha que sua gravidez foi de risco, e que infelizmente o coração de um dos seus gêmeos parou dentro de seu útero, fazendo assim que acontecesse uma cesária de urgência. A gravidez, e o modo como se deu o parto, surtiu efeitos dolorosos para o corpo e a auto estima da cantora.

Conseguimos ver a trajetória árdua de Beyoncé, que chegou pesar quase 100kg, ao retornar aos ensaios. A cantora compartilhou o sofrimento que foi retornar ao ensaios, no começo tinha muitas espasmos musculares e seu corpo não respondia ao que era desejado por ela. Uma das mulheres mais confiantes do mundo, que se apresenta para milhões de pessoas, agora se encontrava com a auto estima fragilizada, e em dor por não poder estar com seus filhos, devido a agenda apertada de ensaios para Coachella.

O processo, não só físico mas como criativo, é cansativo, gigantesco e completamente admirável. Assistir o caminho pelo qual Beyoncé percorreu para nascer o show magnífico é simplesmente maravilhoso. Isso faz com que você dê mais valor, e passe a enxergar os detalhes, até mesmo com uma visão diferente. Ao saber como aquilo foi construído do zero, e de como todos se abstiveram para aquilo finalmente nascer, te dá uma noção completamente diferente do que de um mero espectador.

Mas nem tudo são espinhos, o documentário mostra o lado divertido e família da cantora. A importância da família é mostrado, além de vídeos caseiros, no malabarismo que Beyoncé fazia ao conciliar sua carreira e sua vida pessoal.

Uma das partes mais icônicas durante a performance da cantora no festival é a aparição das três Destiny Child no palco ao som de um medley com os hits da girl group. A apresentação foi de tirar o fôlego, a química entre as três fez parecer que elas nunca haviam se separado (profissionalmente). Beyoncé sempre fez questão de deixar claro que Kelly e Michelle são suas melhores amigas, e sua família. Logo após há uma apresentação divertidíssima de Get me bodied com a sua irmã Solange. Beyoncé mostra até no palco o quanto ela dá valor as suas raízes e a sua família.

Além de Homecoming: A film by Beyoncé, a cantora no mesmo dia lançou o álbum com as músicas performadas no Coachella nas plataformas digitais. Além disso foi anunciado que no dia 23 de abril, finalmente, irão disponibilizar o álbum Lemonade no Spotify. O álbum até então estava somente disponível no Tidal, serviço de streaming do Jay-z e da Beyoncé. Agora finalmente os fãs poderão ter acesso a discografia inteira da cantora no Spotify.

 

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *