Baseado na obra de Min Ji Lee, Pachinko estreou na Appletv+ no final de março. Contando com um elenco de peso, com nomes como Youn Yuh-Jung, Jin Ha, Kim Min-ha e Lee MinHo, o drama consegue desenvolver uma história dolorosa, cheia de perdas e sacrifícios, tendo como seu pilar mulheres fortes e resilientes, capazes de erguer uma família em tempos de guerra e miséria.
Como o livro, Pachinko usa de fatos históricos para moldar seus personagens, os inserindo em meios hostis e nos mostrando como sobreviverão aquela situação. A história começa nos anos 20, com a infância de Sunja (vivida inicialmente pela atriz mirim Yuna) na Coréia dominada pela colonização japonesa. A adaptação acrescenta lacunas que pairam sobre o livro, principalmente no início da história. Nos dando um backgroud mais completo da protagonista, a série consegue nos apresentar a personalidade ousada e destemida da mulher que molda três gerações.
A narrativa opta por oscilar entre épocas distintas da mesma história, não entregando de bandeja todos os acontecimentos da família Baek. Essa ferramenta é arriscada pois pode deixar os espectadores mais desatentos perdidos na história, porém ela é eficiente em manter o interesse na história com um suspense pairando no ar e o questionamento de “o que será que aconteceu com essa família?”.

O primeiro episódio é extremamente promissor, apesar de evidenciar a dor e a miséria de uma Coréia dominada, a história consegue nos acolher com a relação afetiva entre pai e filha. Com ensinamentos e valores adquiridos em seus primeiros anos de vida, Pachinko define que a importância de Sunja é maior do que ela sonhava ter. Destaque a Yuna que protagonizou poucas cenas na infância da personagem, porém marcantes e inesquecíveis.
A próxima fase de Sunja é protagonizada por Kim Min-ha que tem a grande responsabilidade de carregar uma das etapas mais dolorosas da história. Perder toda sua juventude pela esperança de ter uma vida minimamente digna é um processo lento e doloroso de assistir. Pachinko flerta com o romance proibido e o desejo inicial da protagonista viver um grande amor, digno de contos de fadas, mas acaba se tornando mais uma maldição do que um refúgio.
Os mesmos valores e ensinamentos aprendidos no início de sua vida recaem sobre seus ombros e a transformam em uma mulher com um único propósito: manter sua família viva. Como sua mãe foi antes dela, bem como sua avó. O drama por esses moldes cria uma teia de mulheres impactantes e destemidas, que lutam contra todas as probabilidades que são contra elas.


Em sua fase mais idosa, Sunja é vivida por Youn Yuh-Jung, atriz ganhadora do Oscar por seu trabalho em Minari. Apesar de não ganhar um certo destaque dentro dos 8 episódios propostos, o pouco mostrado é o suficiente para enxergarmos as cicatrizes de uma vida dolorosa. Em diálogos intensos e memórias sufocantes, Yuh-Jung acrescenta uma dose de esperança a uma história intensa. Transforma a maldição em esperança e guia a família a dias melhores.
Quanto aos personagens coadjuvantes, não há muito o que dizer. Porque as mulheres, principalmente as versões de Sunja, roubam a cena toda vez que aparecem. A história de Solomon (Jin Ha), por enquanto, soa artificial comparada a todo resto. Todavia, não poderia deixar de enaltecer Steve Noh e Lee MinHo que compartilham opostos da mesma história. Enquanto Noh vive o pastor Isak, o símbolo de esperança, Lee vive Hansu, o homem responsável pelo começo da maldição que a protagonista carregou durante toda sua vida.
Apesar de não ter concordado com algumas mudanças dentro do desenvolvimento da história de Isak, a história de Hansu ganhou adaptações extremamente convenientes e bem executadas. O episódio 7 é o grande destaque de Pachinko, não só por retratar um evento catastrófico do Japão de forma exímia, mas pelo fato de também conseguir criar camadas em um personagem difícil de se tolerar, o que faltou no livro. Lee MinHo prova nesse episódio que toda falta de desenvoltura pelo qual foi apontado em sua versão mais adulta de Hansu foi apenas falta de tempo de tela. Quando observamos o seu destrinchar em um episódio dedicado somente a si, percebemos a evolução de MinHo em sua atuação.


A parte mais técnica do drama faz com que Pachinko se destaque entre as demais produções sul coreanas, flertando com produções cinematográficas, toda sua composição visual e sonora a transformam em uma obra de arte. Com tamanha qualidade que chega ser impossível não cogitar que se fará presente na próxima edição do Emmy.
Ao fim, Pachinko se torna uma obra espetacular, única e avassaladora. Encerrando sua primeira temporada com um episódio emotivo, talvez o mais dramático da série, a história fictícia é sucedida por depoimentos de mulheres reais, coreanas refugiadas no Japão, a história mostra exatamente o tamanho de sua importância. Pachinko vem para dar vozes a histórias ocultas, escondidas em escombros da guerra e pela invisibilidade que a xenofobia proporcionou durante décadas de angústia.
A segunda temporada já foi confirmada. Leia a resenha do livro aqui.
Nota: 5/5





